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id da página: 3765 Evangelho de Tomé - Logion 56

Evangelho de Tomé - Logion 56

Jesus disse: O que conheceu o mundo encontrou um cadáver e o que encontrou um cadáver, o mundo não é digno dele. (Roberto Pla)

EVANGELHO DE JESUS:

  • Pois assim como o Pai tem vida em si mesmo, assim também deu ao Filho ter vida em si mesmo; (Jo 5,26)
  • Estava ele no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, e o mundo não o conheceu. (Jo 1,10)
  • Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entra em juízo, mas já passou da morte para a vida. Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão. (Jo 5:24-25)

Hermenêutica

Roberto Pla

O que diz o logion é que ao aprofundar no conhecimento do mundo se vê que o mundo está morto pois carece de vida própria. Mas só desde a vida é possível contemplar a morte como morte e quem encontra o mundo como um cadáver é porque antes passou da morte à vida; é um ressuscitado, um renascido pela na vida, e por isto se diz que o mundo, o qual é um cadáver, não é digno dele.

Embora o logion não tenha nenhum paralelo nos evangelhos canônicos, não faltam referências no NT à condição de “mortos” do mundo e dos homens, pois este é o principal fundamento da doutrina universal de Jesus anunciada na sentença joanica: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Segundo se diz, é o Pai quem tem vida em si mesmo e também o Filho, ao qual o Pai “o deu o ter vida em si mesmo; por isto, o mundo, que não conheceu “a Palavra na qual está a vida, e todo o que não come o pão de Deus, o pão de vida que desce do céu e “dá a vida ao mundo”, é qualificado de “morto” até que ouça a voz do Filho de Deus, em cujo caso se poderia dizer segundo o evangelho, que “passou da morte à vida” (Jo 5,24).

O ingresso na vida desde a morte é um cumprimento da promessa dada a quem crê no Filho, a todo o que por “levanta” em seu interior à presença do Filho. Este e não outro é o caminho estreito que se se segue “leva à vida”, pois é a estes, aos que contemplam a presença do Filho, a quem o Filho, que os ama, “dá a vida”.

O que o evangelho diz é que a vida é coisa própria só do Pai e do Filho, e este a dá ao espírito do homem — o filho da luz — para que o homem não caminhe na obscuridade, senão que tenha “a luz da vida”.

  • Então Jesus tornou a falar-lhes, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue de modo algum andará em trevas, mas terá a luz da vida. (Jo 8:12)


Disso se colige que somente o Pai, o Filho e o espírito do homem — e este último por participação no Espírito de Deus que no homem habita — têm vida em si mesmos, quer dizer, vida eterna, irrenunciável, porque a essência constitucional da vida é ser vida e não outra coisa. Tudo o mais que nosso olhar contempla é “morte”, porque a vida que muitas coisas parecem ter é vida “em empréstimo”, uma vida que não é deles senão tomada em usufruto de quem tem a vida em si mesmo e a dá temporalmente.

É “o espírito que dá vida” (Jo 6,63). Como diz o apóstolo, “foi” feito o último Adão “espírito que dá vida”, mas o primeiro homem, Adão, “alma vivente”. Por “vivente”, há que entender aqui o mesmo que “vivificado”, isto é, com vida emprestada, e todo o vivificado, sem vida própria, é coisa morta, que se descobre como cadáver quando se contempla desde a vida própria e verdadeira do espírito. Por isso diz o logion que o que conhece o mundo, encontra um cadáver, e esta é a grande revelação prometida ao que sabe oferecer-se ao Espírito de Deus “como morto retornado à vida” (Col 3,4).

Como diz o Apocalipse em termos veterotestamentários: “Ao Vencedor o darei a comer da Árvore da Vida que está no Paraíso de Deus” (Ap 2,7).



Karl Renz

Commentaries On The Gospel Of Thomas. Excerpts from the Marsanne talks, 2015

Qual é o uso desta manifestação? Para que propósito esta perfeição se coloca em tamanha pobreza?

Mas qual Ser está em um estado de pobreza? Uma ideia é uma ideia, uma ideia de pobreza ou qualquer que seja a ideia não faz diferença. A manifestação não tem utilidade e essa é a sua beleza porque não tem significado. É a própria liberdade, livre de significado, livre de uma causa. É simplesmente a realização do que é real, mas não por causa de uma necessidade, nem de um significado, nem de uma vontade. É uma ausência de desejo, que simplesmente se realiza através da realização, mas não por qualquer razão. Essa é a sua beleza, a sua beleza pura.

Podemos dizer que é uma dança. A dança do Ser. Como Shiva dançando consigo mesmo nesta shakti, esta realização. E ser o que é Shiva, dançar com o que somos é ser a própria Vida dançando consigo mesma. Assim não há pobreza, não há nada. Tudo isso vem da ideia de “mim” que quer evitar o sofrimento e ter apenas prazer.

Acreditamos que as crianças expressam isso muito bem.

Sim, elas constroem e depois destroem. Sem qualquer preocupação. Elas não acumulam em nome de uma suposta pobreza. Mas no momento em que a ideia de posse surge, nos tornamos um zelador, este pequeno zelador que tem tanto medo de perder porque pensa que está possuindo algo. O grande zelador de “meu corpo”, meu cadáver. E se tentamos fazer algo com ele, damos vida ao que já está morto.

Mas o que estamos acostumados a considerar como morto são produções mentais - ou seja, ideias - e não os objetos em si. Porque, afinal, os objetos existem independentemente da ideia que temos deles?

Isto ainda é a ideia de ter nascido. E no momento em que pensamos que nascemos, estamos mortos. Enquanto pensarmos que estamos vivos, estamos mortos, porque então o que é vida não passa de uma ideia de estar vivo. Não há vida objetiva, esta vida objetiva é a vida dos mortos. Então vamos para o lugar dos mortos - o que o mundo é - simplesmente por causa desta ideia de ter nascido. Nos tornamos mortais. A ideia de nascimento traz a ideia de morte. Que sejamos o que é não-nascido, que nunca pode morrer. Nada mais.

Se somos, somos o infinito.

Somos mais do que o infinito. O infinito ainda é muito pouco para o que somos. Qualquer coisa que dizemos que somos nunca é grande o suficiente. E qualquer coisa que dizemos que não somos nunca é pequena o suficiente. O que quer que digamos são sempre conceitos. Mesmo se dissermos: “A ausência de todos os conceitos do que sou ou do que não sou”, novamente é simplesmente um apontamento. Eventualmente, ficamos em silêncio. Não há mais definição. Mesmo a definição mais inteligente não significa nada porque as definições vêm e vão. Mas brincamos com elas. Não é nem bom nem mau. É simplesmente um jogo.

Voltar para onde viemos é voltar para o que é anterior. É como a pergunta de Ramana Maharshi “Quem sou eu?”, para mergulhar neste mistério. Viemos Daquilo que é o Ser, o Absoluto, qualquer nome que demos a ele. Então acordamos como “eu”, a consciência, depois como “eu sou”, espaço, tempo, consciência, depois como “eu sou fulano de tal”, o homem. E para retornar a onde viemos, há a pergunta “Quem sou eu?”. Fazemos isso todas as noites: quando vamos dormir, a pessoa se desfaz, resta o “eu sou”, e a consciência. Então até mesmo a consciência... No sono profundo, não há experiência. Então pela manhã o “eu” surge primeiro, em uma fração de segundo, depois o “eu sou”, então, oh..., o corpo-memória começa a funcionar. E à noite retornamos. Então, no sono profundo, todos sabemos quem somos ao não o saber. Então, sejamos aqui e agora o que se é no sono profundo.