O templo simbólico por excelência, dentro da tradição hebraica, é o templo de Salomão, exemplo de exemplos, construído por Hiram, todo ele repleto de inteligência e sabedoria. E a imagem arquetípica que qualquer outro templo reproduz. Mais tarde, este templo é destruído, e o povo de Israel vive no exílio, longe do lugar que é seu, do lugar arquetípico em que o Céu se une à Terra. Pois bem, nesse exílio surge a promessa de salvação, de retornarem ao lugar sagrado do templo e de que este será reconstruído, com sabedoria e inteligência iguais ou maiores, no fim dos tempos do mundo, quando o Messias Salvador vier.
Pensar que o Templo de Salomão, o Paraíso ou o Adão foram criados em uma época, mas que agora não existem, que podemos falar dos arquétipos como se fossem passados, simbolicamente é uma loucura ou estupidez. Buscar o Templo de Salomão entre os resíduos de pedra, é ignorar de que templo se está falando. O Templo de Salomão é o templo perfeito e sincrônico que Deus desenha ao criar o mundo, é seu ato puro, a fim de configurar sua morada. Este ato não consta da história, da cronologia; este ato, esta divisão/temporalização de sua Unidade oculta, ocorre agora, neste instante, porém não sabemos vê-lo, posto que enxergamos apenas com os olhos externos, com as quantidades e, desta forma, é impossível "ver" o Templo de Salomão. Seria ridícula pretensão, querer-se falar dos conteúdos simbólicos do templo.
Também é verdade que esta visão independe de nós e, assim, podemos apenas citar aqueles que viram o templo nesta vida. Não obstante, indicamos esta reflexão, fizemo-la em voz alta, já que, a partir dela, podemos falar do Templo de Salomão como de uma coisa viva, não procurando-o arqueologicamente, mas entendendo-o, fundamentalmente, como o templo interior. O Templo de Salomão é o objeto mais forte de nosso desejo, algo que está por vir e que esperamos, ansiosos, pedindo a Deus que assim seja e que possamos aproximar-nos do reino dos arquétipos eternos, saindo deste mundo perdido, de uma vez por todas. Estamos, não é preciso que nos digam, mais perto da magia do que da ciência. Tentamos invocar algo, tentaremos fazer, com todas as nossas forças, que esta coisa que está em cima baixe, a fim de revelar-se a nossos olhos.
Talvez o primeiro aspecto do templo sobre que deveríamos falar, seja o templo-fortaleza ou muralha que nos livra das forças do mal, as quais nos tentam continuamente, a fim de fixarem em nós seu espírito errante. Este templo-fortaleza que nos resguarda das coisas deste mundo e nos dirige para as coisas do mundo por vir, é como o círculo dos magos, traçados por eles à sua volta para impedir a entrada de seres da morte, isto é, seres que procuram a desordem e a dissolução. No interior deste círculo em que está inscrito o sincronismo universal, fica o lugar, o lugar esperado, o ponto em que o céu se pode unir à terra e a terra ao céu. Dentro deste círculo se situa o Templo de Salomão.
Disse o sábio rei Salomão a Hirão, rei de Tiro: "Bem sabes tu que Davi, meu pai, não pôde edificar uma casa ao Nome de YHWH seu Deus, por causa da guerra com que o cercaram, até que YHWH os pôs debaixo das plantas dos pés. Porém agora YHWH meu Deus me tem dado descanso de todos os lados; adversário não há, nem algum mau encontro. E eis que intento edificar uma casa ao Nome de YHWH meu Deus, como falou YHWH a Davi meu pai, dizendo: Teu filho que porei em teu lugar no teu trono, ele edificará uma casa ao meu Nome" (I Reis, 5, 3-5). O Templo de Salomão está em Jerusalém, palavra que, etimologicamente, significa "fundação de paz", quando o povo de Israel consegue a paz à sua volta. O senhor (YHWH) se instala no centro de sua terra, em Jerusalém, como está dito: "porque de Sião sairá a Torah, e de Jerusalém a palavra de YHWH." (Isaías, 2, 3), e também: "Em Jerusalém porei o meu Nome." (II Reis, 21-4).
O templo é o envoltório do Nome, como podemos ver claramente nas mesquitas, onde existem apenas, na direção de Meca, o Corão e as quatro letras do nome de Alá; aquilo que está contido no templo, seu simbolismo, é estritamente a presença do Nome. Pelo conhecimento do Nome, ligamo-nos à perpétua criação de Deus, isto querendo dizer que o Nome pode reconstruir o primeiro e arquetípico templo, que seu som gera a ordem perfeita e sincronizada. [Raimón Arola: O Simbolismo do Templo]
Sorprendente entre todas es esta tradición: cuando el templo de Salomón fue entregado a las llamas por Nabucodonosor (Nabukadnezar), los sacerdotes, llevando en sus manos las llaves del templo, subieron al tejado del santuario y clamaron al cielo: «Señor del mundo, puesto que en adelante no podemos cumplir nuestra función en este templo, coge las llaves en tus manos». Lanzaron las llaves hacia lo alto del cielo y una mano apareció en él y cogió las llaves1 . Me parece percibir por otra parte una correspondencia significativa: en nuestro ciclo del Graal la epopeya que está consagrada a la gesta de Galahad termina con una escena mística en el palacio espiritual de Sarraz: una mano aparece en el cielo y coge el santo Graal, que será en adelante invisible a este mundo, en el tiempo de este mundo.
Sin embargo, la Imago Templi sobreexiste. Cuando el hombre ha modelado su ser interior de tal forma que ella se manifiesta en él, es porque él se encuentra eo ipso en la «confluencia de los dos mares», y es ahí mismo, y en ningún otro sitio, donde pueden serle devueltas personalmente las llaves del templo2 . Así fueron devueltas a Sohravardí, que en el Irán islamizado quiso hacer volver del exilio la teosofía de la Luz profesada por los sabios de la antigua Persia. En uno de sus discípulos, Davání, la percepción visionaria hará incluso de la Pérsida (Fars) un «reino de Salomón», y de Persépolis un alto lugar de iluminación espiritual de tradición salomónica3 . Por eso la trayectoria del investigador de la gnosis irano-islámica debía reconducirle a la hierofanía primordial del «Templo por venir». Es la Imago Templi tal como se ofrece a la percepción visionaria del profeta Ezequiel y sobre la cual la comunidad de los esenios de Qumrán debía modelar toda su teología del Templo y del nuevo Templo. [Henry Corbin – Corbin Imago Templi]
NOTAS: