VISEUX, Dominique. L’initiation chevaleresque dans la légende arthurienne. Paris: Dervy-Livres, 1980
A DAMA E O GRAAL NA LENDA ARTURIANA
“No meu leito, durante as noites, procurei aquele que meu coração ama. Eu o procurei e não o encontrei...”
“Tu és um jardim fechado, minha irmã, minha noiva, uma fonte fechada, uma fonte selada...”
Cântico dos Cânticos, III. i e IV. 12.
Quando se faz menção, nos Romances Arturianos da Távola Redonda, dos “Tempos Aventurosos”, das “Aventuras” de Lancelot ou de Perceval, não se deve perder de vista que a palavra “Aventura” é aqui com duplo sentido: sua raiz, adventus, produziu as palavras Advento, Acontecimento, que são para se compreender como tantos equivalentes. Assim, a Aventura suprema do cavaleiro será seu “Acontecimento”, ou seja, a ascensão ao supremo grau de sua realização espiritual. Da mesma forma, “o Começo e o Fim dos Tempos Aventurosos” dos quais se trata sobretudo no ciclo de Lancelot, marcam os limites extremos de um ciclo de realização e de busca espiritual.
A busca espiritual do cavaleiro terá, dependendo do caso, dois objetivos diferentes. O primeiro será a submissão e a união com a Dama; o segundo, a visão do Graal. A devoção do cavaleiro à sua Dama (como a busca da “Imortal Amada”) constitui o tema mais antigo. De origem celta, ele é comum a toda a literatura indo-europeia, às lendas nórdicas, à mitologia grega, às epopeias hindus. A busca do Graal, embora baseada em um simbolismo também muito antigo, não é menos o tema mais recente, que contribuiu muito para a cristianização dos romances arturianos. Este fenômeno explica certas ambiguidades, notadamente nos romances de Lancelot e de Perceval onde coexistem os dois temas, portanto os dois objetivos que parecem por vezes inconciliáveis.
O simbolismo da Dama, próprio à Iniciação Real, é de natureza bastante complexa. Em toda circunstância, é preciso se lembrar que o cavaleiro e sua Dama não são, na realidade, senão um só e mesmo ser, cujas duas partes se separaram “no começo dos tempos”. Estas duas partes são os dois “Si” que coabitam em nós: o “Si” imortal e o “eu” mortal ou respectivamente, o Espírito imanente, a Alma imortal, a Personalidade que encarnará a Dama de um lado, e por outro lado a alma individual agindo e dotada de vontade própria, a individualidade simbolizada pelo cavaleiro.
É preciso aqui se lembrar que a Iniciação real e cavalheiresca tem por objeto a reintegração do estado primordial edênico, estado que se pode qualificar de andrógino, correspondendo à “União das duas Naturezas”, termo dos “Pequenos Mistérios”. Por outro lado, se pensarmos que a Iniciação cavalheiresca é essencialmente masculina, compreende-se facilmente as respectivas atribuições dos papéis masculino e feminino. Ao cavaleiro pertence a vontade e o livre-arbítrio; ele representa um elemento do ser essencialmente agindo e volitivo. A Dama, na maioria das vezes o próprio objeto da busca, é, ao contrário, não agindo, mas representa a autoridade espiritual sem a qual a ação não é senão desordem e agitação.
Deve-se, no entanto, ter cuidado com toda sistematização, pois as mesmas tradições podem conjugar (simultaneamente por vezes) duas aplicações diferentes do mesmo simbolismo. Assim, na Bhagavad-Gita, escrito destinado aos “Kshatriyas”, as duas partes do ser são encarnadas por Krishna, o Senhor, e Arjuna, o guerreiro, representando o Si ou a Personalidade (Atma) e o eu ou a individualidade (Jivatma), o ensinamento dado por Krishna a Arjuna se efetuando pela intuição supraindividual, modo pelo qual o “Si” dirige a ação do “eu”. Na lenda Arturiana, uma relação análoga se estabelece entre Merlin, detentor de um conhecimento sobrenatural, e Arthur, personificação da ação e do poder real e temporal. Merlin representa então “o Espírito que prevalece sobre a Força”.
A busca da Dama evidentemente não se efetua sem provações e o “Si” (que ela representa) não pode ser abordado por todos, indistintamente. O cavaleiro deve então ultrapassar sua cegueira, desfazer-se de todo entrave individual para partir em busca de seu domínio que se situa “além-mar” (Yseult) ou em um castelo inacessível (Brunhild). Sua conquista também não é sem dificuldades; às vezes, estas dificuldades se incorporam à própria Dama, acrescentando-lhe de certa forma uma segunda natureza que mascarará a natureza divina do Si de uma veste grosseira, humana, às vezes animal. É aqui o significado do mito das mulheres-serpentes, das sereias que o Herói deverá desencantar, da megera que o cavaleiro deverá domesticar, da Bela adormecida por um feitiço que o príncipe virá acordar, acordando assim em eu, a Alma divina enterrada na ignorância e nas trevas. Este dualismo na natureza da Dama é expresso de uma certa forma, na tradição hindu, pela distinção entre a Natureza Universal que “ilumina” (Vidya-Maya) e a Natureza enquanto poder de ilusão (Avidya-Maya) e, embora a Dama não possa de modo algum ser associada a Maya, no caso presente, pode-se dizer que a dupla condição do Si (enterrado ou revelado) é um efeito da dupla natureza desta.
Estas duas naturezas, cuja distinção repousa sobre a oposição cosmogônica do céu e da terra, devem, após se enfrentarem, não se aniquilar, mas se harmonizar no ser a fim de que se abra para este o estado de “Não-Dualidade”. É o que é expresso, entre outros, no simbolismo dos dragões entrelaçados ou dos animais compostos (grifos, dragões alados, etc.) onde se realiza a união das duas naturezas. Lá ainda é preciso ter cuidado para não sistematizar estas relações, pois (o que é aparentemente contraditório) o Homem encarna frequentemente a natureza celeste (e solar) e a Mulher, a natureza terrestre (ou lunar). Na realidade, o simbolismo, longe de ser incoerente, é extremamente flexível e pode expressar simultaneamente relações diferentes ou até opostas. Por enquanto, nos limitaremos a dizer isto: no simbolismo cavalheiresco, o cavaleiro encarna o “eu” volitivo e agindo, a Dama o “Si” não agindo e imortal. As duas naturezas, celeste e terrestre, podem se acumular no simbolismo da Dama e o cavaleiro deverá então “harmonizá-las”, ou serem repartidas entre o Homem e a Mulher, cujo objetivo será então a União. É preciso, no entanto, notar que as relações existentes entre os elementos dos casais “Dama-Cavaleiro” e “Homem-Mulher” não são de modo algum equivalentes e em nenhum caso intermutáveis, já que o primeiro expressa uma relação hierárquica e o segundo uma complementaridade.
Na Mundaka Upanishad, encontra-se a seguinte imagem: “Dois pássaros associados um ao outro com nomes semelhantes, estão empoleirados na mesma árvore. Dos dois, um come os frutos saborosos, o outro sem comer, olha.” Os dois pássaros representam aqui, respectivamente, a alma individual que come os “frutos da vida” com inquietude, e a Alma imortal que olha soberanamente e sem se mover, expressando assim a relação do “eu” e do “Si”, da ação e da contemplação. Ora, vimos que a via iniciática do cavaleiro é essencialmente ativa, e isto é característico da Iniciação real aos pequenos Mistérios, que deve logicamente ser prolongada por uma Iniciação sacerdotal aos grandes Mistérios, onde predomina desta vez a contemplação. Assim, o cavaleiro, depois de se nutrir por muito tempo dos “frutos da vida”, deverá, se puder, reconhecer enfim a Dama que vela silenciosamente em Si e o “olha intensamente”. Na mesma relação, podemos dizer que a Iniciação Real é caracterizada por um estado de errância, enquanto a Iniciação Sacerdotal é essencialmente a contemplação imóvel. É a este estado de errância que se refere o simbolismo da viagem, da peregrinação e da cruzada. Nos romances arturianos, este aspecto do cavaleiro é particularmente desenvolvido e constitui a característica essencial da Busca que não é outra coisa, no fundo, senão uma “viagem ao centro de Si mesmo” e que deverá terminar pela reintegração do próprio centro: “Se tudo está em eu, diz Shankara, que outra peregrinação há ainda para eu?”.
Esta errância vai, portanto, levar o cavaleiro a atravessar diferentes lugares que serão, é claro, os “lugares da Alma”, a atingir numerosos castelos que serão tantos estados espirituais particulares, de recapitulações, de tomadas de consciência. Assim, o castelo de Arthur, que segundo certas tradições, se encontra em um movimento de rotação perpétuo, concretiza o Eixo do Mundo e o Centro do Ser. A floresta que os cavaleiros atravessam incansavelmente, não é outra coisa senão a “Hyle”, equivalente da caverna e às vezes do deserto, a Materia Prima da alma, caótica e não elaborada, e que se opõe ao campo que, por excelência, é a terra elaborada. Neste mesmo simbolismo espacial, o deserto se opõe à cidade, como a morte se opõe à vida; a água se opõe à terra, como o poder ao ato, a “passagem das águas” sendo precisamente a realização das potencialidades do ser.
Se o cavaleiro é uma personificação da faculdade volitiva do ser ligada às faculdades mentais, o cavalo que deve logicamente obedecer ao cavaleiro, simboliza aqui as forças elementares e vitais, instintos e paixões, que convém ao cavaleiro dominar bem, se ele quer atingir o objetivo. A este propósito intervém um costume nos Romances da Távola Redonda que é o seguinte: cada vez que um cavaleiro é desmontado por um inimigo, este último, vencedor, lhe rouba seu cavalo. Ora, este inimigo não sendo muitas vezes senão uma personificação do “Orgulho” ou do “Egoísmo”, é claro que é preciso ver, nesta imagem, a libertação dos instintos e das paixões quando a vontade abdica e se entrega ao “Inimigo”. Da mesma forma, segue-se inevitavelmente para o cavaleiro uma dilapidação da força vital, simbolizada pelo rapto do cavalo.
A espada é igualmente um dos elementos fundamentais da Busca. Ela simboliza, no sentido mais elevado, a Sabedoria e o Poder do Verbo. Ela é, por excelência, a arma do Conhecimento e dos combates espirituais, e neste ponto, ela não é sem relação com a Dama que, vimos, representa a autoridade espiritual e conhecedora, “o pássaro que olha sem comer”. É por esta razão que a espada é frequentemente entregue ao herói pela própria Dama, e que é ela que indica o meio de a ressoldar se ela vier a se quebrar. Outras vezes, encontra-se a espada encravada em um rochedo ou em uma árvore de onde só o cavaleiro qualificado pode extraí-la, imagem do Conhecimento enterrado no centro do Ser, e que só será extraído pelo “Conhece-te a ti mesmo”. A espada é sempre perfeitamente adaptada ao cavaleiro e assim acontecerá, por via de consequência, que este deverá trocá-la no curso de sua busca, tendo chegado a uma etapa superior no Conhecimento de Si.
O simbolismo do Graal é, como o da espada, fundamental. Ele se apresenta, nos romances arturianos, sob a forma de uma taça e às vezes de uma pedra preciosa. Estes dois símbolos são, aliás, muito ligados, pois de acordo com a lenda, o Graal teria sido talhado pelos anjos em uma esmeralda caída da testa de McGinn Anticristo Alterego, durante a queda deste último. Esta pedra enfeitando a testa de Lúcifer, não é outra coisa senão o “terceiro olho”, aquele que vê além das aparências e que restitui àquele que o carrega “o sentido da eternidade”. Após a queda de Lúcifer, o Graal foi confiado a Adão, no paraíso, mas este o perdeu igualmente após sua transgressão, pois ele não pôde levá-lo “para fora do Paraíso”. Seth, antecipação do Cristo, obteve encontrá-lo. De lá, ele teria sido transmitido até o Cristo que o utilizou durante a Ceia, depois a José de Arimateia que nele recolheu o sangue do Redentor. Assim, o Graal é um equivalente do “Coração do Cristo”, assim como do “Centro do Mundo” (o que é o mesmo no fundo), pois ele contém o sangue redentor, assim como o Paraíso continha em potência os rios de vida.
O Graal teria sido em seguida transportado por José de Arimateia e Nicodemos (representantes dos poderes temporal e espiritual) para a Grã-Bretanha. Lá, o último filho de José de Arimateia fundou com a filha de Nascien (descendente do rei Salomão) a dinastia dos “Reis Pescadores”, guardiães do Graal. É lá que o rei Mordrain, cunhado de Nascien, devorado de inveja de contemplar o Graal e não sendo designado para o fazer, quis ultrapassar a interdição e foi cruelmente atingido por um anjo que lhe perfurou as duas coxas com sua lança. O rei Mordrain carregou desde este tempo o nome de “Rei Aleijado” (ou seja, ferido), sabendo que ele só curaria quando viesse “O Melhor Cavaleiro do Mundo” e que, assim que curado, ele poderia enfim morrer. Tal é brevemente exposta a história do Graal desde sua origem até o começo dos Tempos Aventurosos. O tema do Graal não é, aliás, propriamente falando, uma inovação no ciclo Arturiano, pois ele possui um antecedente notável no caldeirão celta, que constitui da mesma forma, a fonte de abundância e de ressurreição, assim como o lugar onde se extrai a inspiração dos bardos.
O Castelo do Graal, chamado igualmente “a Cidadela Aventureira” (vimos porquê) ou Monte Salvage (o “Monte do Salvador”, que é ao mesmo tempo a Montanha Cósmica) tem isto de próprio que ele só aparece àqueles que não o procuram; em outras palavras, ele não aparece aos invejosos, mas àqueles que “procuram a Si mesmos”. Quanto ao Graal ele mesmo, sua abordagem exige uma qualificação e uma preparação espiritual muito profunda; com efeito, como a Árvore da Vida guardada pelo poder “Querubim”, o acesso ao Graal é sancionado por um poder destrutivo que fulmina, cega ou fere os imprudentes. Mas as virtudes do Graal são milagrosas para o cavaleiro qualificado: virtudes de Luz, de Revelação, virtudes nutritivas ligadas à função eucarística, virtudes de manter a vida além dos limites humanos (é o caso do Rei Aleijado), virtudes de cura e de vitória. A contemplação do Graal restitui o estado andrógino primordial, termo dos pequenos Mistérios, mas pode conduzir ainda mais longe.
Como já assinalamos, o tema da Dama se justapõe às vezes ao do Graal, notadamente no caso das guardiãs do Graal. Sabe-se que o Graal só pode ser carregado por uma virgem cuja pureza é absoluta, mas este fato não é único: reencontramos um caso análogo com as Hespérides, guardiãs das maçãs de Ouro e, neste sentido, é preciso bem entender que a função da Dama, como a da Virgem, não pode ser, de fato, senão de deter e revelar a Vida.
Se a Dama e o Graal parecem, portanto, se confundir às vezes em um só e mesmo objetivo, o cavaleiro sendo a personificação do mental e da vontade do ser, é de uma natureza muito mais complexa: com efeito, enquanto o Si imortal se comporta como uma unidade indissolúvel, o eu mortal é, por sua vez, composto ou justaposto a uma “legião de seres elementares” correspondendo aos “envoltórios” dos quais o ser deve se libertar. Este fato é particularmente expresso na composição da corte do Rei Arthur com a qual se confrontam regularmente os cavaleiros da busca. Assim, nesta relação, o rei Arthur representa evidentemente o Ser em sua totalidade, enquanto a rainha Guinevere encarna a Dama, por excelência; vêm em seguida Gauvain que, enquanto sobrinho do Rei, representa as virtudes cavalheirescas e humanas; Keu o Senescal, personificação do espírito crítico e sarcástico que paralisa o ser e freia sua realização; Sagremor, o “desregrado”, encarna o espírito impetuoso e imprudente cujas todas as ações são votadas ao fracasso; os sobrinhos do Rei e irmãos de Gauvain representam, por sua vez, as diversas tendências do Ser, superiores (Gaherict), intermediárias (Guerrehes) e inferiores (Agravain) que não se pode deixar de comparar à tríade: Abel, Seth e Caim. Quanto a Mordret, filho adúltero de Arthur, ele é a antítese do próprio Rei, o traidor destrutivo, o que Judas é para o Cristo. Enfim, é preciso notar que o orgulho, do qual já falamos, não é encarnado diretamente na corte de Arthur, mas provém sempre do exterior, figurado por um cavaleiro inimigo. De fato, não há nisto nada de espantoso se pensarmos que o orgulho é o defeito “luciferiano” por excelência, o único que se opõe realmente a toda realização possível do ser, como diz muito justamente santo Agostinho: “Os outros vícios se apegam ao mal, para que ele se faça; o orgulho, sozinho, se apega ao bem para que ele pereça.”
Aqui está, então, em poucas palavras, resumido o composto do eu mortal aparecendo em sua multiplicidade e cuja tarefa é precisamente de “reunir o que está disperso” (portanto de “reunir Si mesmo”), de se despojar dos envoltórios grosseiros, de restituir à Unidade tudo o que o ser se apropriou no domínio da multiplicidade. Assim, cada cavaleiro carrega em Si esta legião de seres, de tendências, de faculdades que ele deverá domar e reduzir à Unidade a fim de se unir verdadeiramente ao “Si imortal”, única e suprema realidade.