Frithjof Schuon: O ESOTERISMO COMO PRINCÍPIO E COMO VIA
Abade Stephane: DA NORMA E DAS NORMAS
- verdades a crer (dogmas) que não são conceitos abstratos, mas a expressão mental e verbal de Realidades transcendentes (exemplo: a Imaculada Concepção);
- mandamentos a observar (moral), virtudes a realizar, que não são simples exteriores, mas a expressão ou a tradução de uma Norma interior, da conformidade a “meu” Arquétipo eterno;
- um culto, (uma liturgia), ritos, sacramentos que realizam em mim certas Realidades suprahumanas ou divinas (exemplo: o Batismo e a Eucaristia realizam em mim a Paixão, a Morte e a Ressurreição do Cristo).
Que quer que seja, dogmas, mandamentos e ritos aparecem primeiramente como normas exteriores, mas se não correspondem a uma Norma interior, se reduzem a um formalismo puro ou ao farisaísmo. No entanto, sem as normas exteriores, cai-se na religiosidade vaga, inconsistente, ineficaz. As normas constituem o lado objetivo da Religião, a Norma interior dela é o lado subjetivo, mas elas são o complemento indispensável uma a outra.
No ponto de partida e ao longo da “via purgativa”, os dogmas aparecem como marcas e indicadores sobre o caminho que conduz ao Conhecimento; a discussão, a dúvida, o questionamento são tantos obstáculos que se deve evitar. No estágio da “via iluminativa”, os dogmas ainda só aparecem como “a superfície de exteriores prateados” (Juan de la Cruz, Cântico Espiritual), mas no nível da “via unitiva” e do casamento espiritual, o mesmo autor declara: “Imediatamente, teremos acesso às sublimes cavernas da Pedra (o Cristo) que permanecem bem escondidas”. Trata-se aqui da “mística nupcial”; no entanto, a “mística da essência” (Dionísio o Areopagita, Mestre Eckhart) e a Treva mística portanto não estão excluídas, mas superam as perspectiva do Cântico, posto que as “cavernas permanecem bem escondidas”. O que seja, nesta ascensão mística, trata-se sempre dos dogmas segundo sua função de normas exteriores até aquelas de Norma interior (as cavernas da Pedra), a “superfície dos exteriores prateados” sendo uma espécie de limite, de fronteira entre as duas faces “externa” e “interna” dos dogmas, ou se se quer, entre a Luz inteligível e a “Treva mais que luminosa” do Silêncio (Dionísio o Areopagita).
Essas considerações nos parecem essenciais para compreender que a Norma interior, em sua realidade profunda, não se situa ao nível psicológico; sem dúvida ela se traduz ao nível da psyche por uma atitude que se pode chamar “interior”, exatamente como ela se exprime ao nível do “corpo” pelas normas exteriores, notadamente nas obras e ritos. Mas precisamente, o que dissemos sobre o dogma, cuja “face exterior” se situa ao nível do mental (que aparece como interior em relação ao corporal) e cuja “face interior” é consequentemente além do mental, permite compreender que a verdadeira interioridade se encontra, nos dois casos, além da psyche, logo ao nível do nous.
Tudo o que precede tende a demonstrar que a Norma interior não é puramente subjetiva, não somente porque ela tem por complemento indispensável as normas exteriores objetivas, mas porque no topo da União mística, elas formam como as duas faces de uma mesma Realidade, ao mesmo tempo objetiva e subjetiva, figuradas mo Cântico espiritual (estrofes 11 e 36) pela “superfície dos exteriores prateados” e pelas “sublimes cavernas da Pedra”.
Segue-se que na perspectiva cristã a verdadeira Norma interior é a Pedra, quer dizer o Cristo. Esta perspectiva se situa portanto essencialmente ao nível ontológico, e o Mistério da Encarnação, da União hipostática das duas naturezas, permanece o Centro da espiritualidade cristã, o Protótipo, ao mesmo tempo objetivo e subjetivo, da União mística, pois como diz Mestre Eckhart, o Pai só tem uma Vontade, engendrar o Filho Único, o Primogênito, o Filho unigênito: exteriormente a este Mediador, não há espiritualidade cristã.NÃO-DUALIDADE
Wei Wu Wei: BUDAS PARA QUEIMAR