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Literatura

Citações retiradas de obras literárias e seus críticos.

O Isso

Eu costumava pingar limão em cima da ostra viva e via com horror e fascínio ela contorcer-se toda. E eu estava comendo o it vivo. O it vivo é o Deus. ...

Vou parar um pouco porque sei que o Deus é o mundo. É o que existe. Eu rezo para o que existe? Não é perigoso aproximar-se do que existe. A prece profunda é uma meditação sobre o nada.

(Clarice Lispector. Água viva. Rio de Janeiro, Artenova, 1973.)

O instante é de um escuro total

Espere: está ficando escuro. Mais. Mais escuro. O instante é de um escuro total. Continua.
Espere: começo a vislumbrar uma coisa. Uma forma luminescente. Barriga leitosa com umbigo? Espere – pois sairei desta escuridão onde tenho medo, escuridão e êxtase. ...
Agora as trevas vão se dissipando.
Nasci.
Pausa. Maravilhoso escândalo: nasço.

(Clarice Lispector. Água viva. Rio de Janeiro, Artenova, 1973.)

Princípio da razão insuficiente

[...] e como uma pistola meteu-lhe no peito três perguntas: o que entendia por “verdadeiro amor à pátria”, “verdadeiro progresso” e “verdadeira Áustria”. Ulrich, perturbado em seu devaneio mas sem sair dele, respondeu da maneira com que sempre tratara Fischel:

— É o PDRI!

— O...? — soletrou o diretor Fischel, inocentemente, e dessa vez não pensou em nenhuma piada, pois aquelas siglas, embora naquele tempo ainda não fossem tão numerosas como hoje, eram conhecidas de sindicatos industriais e ligas, e inspiravam confiança. Mas depois disse:

— Por favor, não faça piadas; estou com pressa, preciso ir a uma reunião.

— O princípio da razão insuficiente! — repetiu Ulrich. — O senhor é filósofo e há de saber o que quer dizer o princípio da razão insuficiente. Só consigo mesmo o homem faz uma exceção nesse assunto; em nossa vida real, quero dizer a vida pessoal, e em nossa vida pública e histórica, sempre acontecem coisas que não têm razão suficiente.

Leo Fischel hesitou, sem saber se devia contradizer ou não; o diretor Leo Fischel do Banco Lloyd gostava de filosofar, ainda há dessas pessoas nas profissões práticas, mas estava realmente apressado; por isso respondeu:

— O senhor não quer me entender. Eu sei o que é progresso, sei o que é Áustria, e provavelmente sei o que é amor à pátria. Mas talvez não consiga imaginar direito o que é verdadeiro amor à pátria, verdadeira Áustria, e verdadeiro progresso. E por isso estou lhe perguntando!

— Muito bem; sabe o que é uma enzima ou um catalisador? Leo Fischel ergueu a mão, num gesto de recusa.

— Eles não contribuem com nada materialmente, mas desencadeiam os acontecimentos. Da história o senhor deve saber disso, pois que nunca existiram a verdadeira fé, a verdadeira moral, e a verdadeira filosofia; mesmo assim as guerras, perversidades e ódios causados por elas transformaram o mundo de maneira fecunda.

(MUSIL, Robert. O homem sem qualidades. Tr. Lya Luft & Carlos Abbenseth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989)

Lei dos grandes números

Chama-se isso, um pouco vagamente, lei dos grandes números. Significa que uma pessoa se mata por esse motivo, uma outra por aquele, mas, tomando-se um grande número de suicidas, o caráter casual e pessoal desses motivos se anula, e permanece... sim, o que permanece? É isso que quero lhe perguntar. Pois, como vê, sobra isso que qualquer um de nós leigos chamará simplesmente a média, e que não sabemos ao certo o que seja. Quero acrescentar que se tentou esclarecer de forma lógica e formal essa lei dos grandes números, por assim dizer como uma obviedade; também se afirmou o contrário, que essa regularidade de fenômenos sem ligação casual entre si não poderia ser esclarecida pelo pensamento comum; e, ao lado de muitas outras análises do fenômeno, afirmou-se que não se tratava apenas de fatos isolados, mas de leis gerais ainda desconhecidas. Não a quero aborrecer com detalhes, nem recordo todos, mas sem dúvida seria importante para mim saber se atrás disso há leis não compreendidas da sociedade, ou se simplesmente, por ironia da natureza, nasce daí a peculiaridade de que nada de peculiar aconteça, e o sentido mais alto seja atingível unicamente pela média da mais profunda absurdidade. Tanto um como o outro saber deveriam ter influência decisiva em nosso sentimento de vida! Pois seja como for, repousa nessa lei dos grandes números toda a possibilidade de uma vida ordenada; e se não existisse essa lei da compensação, num ano não aconteceria nada, e no outro nada estaria seguro, a fome se alternaria com a abundância, haveria crianças de menos ou em excesso, e a humanidade voaria de um lado para outro entre possibilidades infernais e celestiais como passarinhos quando nos aproximamos de sua gaiola.

(MUSIL, Robert. O homem sem qualidades. Tr. Lya Luft & Carlos Abbenseth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989)

Mistério do espelho

Mas agora estou interessada pelo mistério do espelho. Procuro um meio de pintá-lo ou falar dele com a palavra. Mas o que é um espelho? Não existe a palavra espelho, só existem espelhos, pois um único é uma infinidade de espelhos. Em algum lugar do mundo deve haver uma mina de espelhos? Espelho não é coisa criada e sim nascida.

(Clarice Lispector. Água viva. Rio de Janeiro, Artenova, 1973.)

Impermanência

A qualquer momento, o mundo pode ser transformado em todas as direções, ou pelo menos em qualquer uma delas; ele tem isso, por assim dizer, no sangue. É por isso que seria original tentar se comportar não como um homem definido em um mundo definido, onde não há mais, poderíamos dizer, do que um ou dois botões para apertar (o que chamamos de evolução), mas, desde o início, como um homem nascido para a mudança em um mundo criado para mudar, ou seja, quase como uma gota d'água em uma nuvem.

(Robert Musil. L’Homme sans qualités, traduit de l’allemand par Philippe Jaccottet, Editions du Seuil, 2 tomes, 1956)

Força do que Existe

Ah Força do que Existe, ajudai-me, vós que chamam de o Deus. Por que é que o horrível terrível me chama? que quero com o horror meu? porque meu demônio é assassino e não teme o castigo: mas o crime é mais importante que o castigo. Eu me vivifico toda no meu instinto feliz de destruição.

(Clarice Lispector. Água viva. Rio de Janeiro, Artenova, 1973.)

Quem mói no asp’ro não fantasêia

“Quem mói no asp’ro não fantasêia”, declara Riobaldo, a certa altura de Grande sertão: veredas, rememorando a vida aventurosa e violenta que levara quando jagunço. O sentido é claro: as tribulações não deixam tempo para o devaneio, a imaginação, a fantasia; toda atenção deve se voltar para o real, presente ou iminente – para a ameaça. Em tempos como os que correm, tão obscuros e tão decisivos para o nosso devir, seria difícil discordar. Ainda assim, releiamos mais de perto o dito de Riobaldo: a concisão verbal é admirável; o verbo moer é usado em modulação metafórica, com feição intransitiva, e o verbo seguinte, fantasiar, conjugado caprichosamente, dá vontade de sorrir; o tom é lapidar, sentencioso, quase proverbial, como tantas vezes Riobaldo sabe ser e, mais que isso, gosta de ser; e, por último, os provérbios não são, como sugeria Walter Benjamin, uma forma de narrativa em miniatura? Se for assim, haverá mais em jogo na frase do que a camada evidente deixa ver de primeira. Como se, numa espécie de paradoxo performativo, o gesto verbal de declarar a moratória da fantasia não saberia ou não poderia dispensar a mesma; como se, afinal, as tais tribulações não tivessem como anular o exercício da fantasia, antes a nutrissem e a solicitassem: na ausência dela, não haveria como formular o sentido do real. (Samuel Titan Jr.)

Bons velhos tempos

Pois, quando se proclama — e quem não proclamou algo assim? — que faltam à nossa época a síntese, a cultura, a religiosidade ou a comunidade, isso não representa mais do que um elogio aos “bons velhos tempos”, dado que ninguém saberia dizer com que deveriam parecer, hoje em dia, uma cultura, uma religião ou uma comunidade, caso elas realmente quisessem admitir em sua síntese os laboratórios, as máquinas voadoras e o corpo social gigantesco, e não simplesmente pressupô-los como ultrapassados.

(MUSIL, Robert. “Das hilflose Europa oder Reise vom Hundersten ins Tausendste”, Gesammelte Werke, v. VIII, p. 1087.)

Mundo cômico

Considerado do ponto de vista técnico, o mundo torna-se francamente cômico; pouco prático em tudo o que concerne às relações dos homens entre si, inexato no mais alto grau e contrário à economia em seus métodos. Para quem adquiriu o hábito de se desincumbir de suas tarefas com a régua de cálculo, torna-se completamente impossível levar a sério uma boa metade das afirmações humanas.

(MUSIL, Robert. L’Homme sans qualités, traduzido do alemão por Philippe Jaccottet. Paris: Éditions du Seuil, 1982)

Crítica a Spengler

(...) Existe no — eu gostaria de utilizar a palavra “intelectual” —, digamos, portanto, nos meios intelectuais — mas refiro-me aos da literatura —, um preconceito favorável a respeito das infrações contra a matemática, a lógica e a exatidão; na categoria dos crimes contra a mente, elas são facilmente classificadas como crimes políticos que honram seus autores, aqueles nos quais o promotor público encontra-se, propriamente falando, no papel do acusado. Sejamos generosos, portanto. Spengler deve ser abordado assim-assim; ele trabalha com analogias e, ao fazer isso, sempre se pode ter razão em algum sentido. Quando um autor quer pôr denominações erradas nos conceitos, de uma ponta à outra, ou confundi-los, eles próprios, podemos acabar por nos acostumar com isso. Mas é preciso manter um código de decifração, alguma ligação unívoca, em suma, do pensamento com a palavra. Também isso está ausente. Os exemplos que apresentei, e que foram levantados entre muitos outros, sem que fosse preciso procurar muito, não são erros de detalhe, mas um modo de pensar!

(MUSIL, Robert. “Geist und Erfahrung, Anmerkungen für Leser, welche dem Untergang des Abendlandes entronnen sind”, in: Gesammelte Werke in neun Bänden, v. VIII, pp. 1043-4.)

Utopia da exatidão

Vão objetar que isso é utopia! Certamente é. Utopias significam mais ou menos o mesmo que possibilidades; o fato de a possibilidade não ser realidade significa que as circunstâncias com as quais se entrelaça atualmente a impedem de se tornar real, caso contrário ela seria apenas uma impossibilidade; se a soltarmos dessas amarras, e permitirmos que se desenvolva, surgirá a utopia. É semelhante ao que acontece quando um pesquisador vê a mudança de um elemento num fenômeno complexo, e tira disso suas conclusões; utopia é a experiência na qual se observa a possível modificação de um elemento, e os efeitos que isso causa no fenômeno complexo que chamamos vida. Se o elemento observado é a própria exatidão, nós a destacamos e deixamos que se desenvolva, contemplamo-la como hábito de pensamento e postura de vida, e deixamos que exerça sua força exemplar sobre tudo que toca; e chegaremos a uma pessoa na qual se realiza uma paradoxal ligação entre exatidão e indeterminação. Ela possuirá aquele insubornável sangue-frio intencional que é o caráter da exatidão; mas além dessa qualidade, tudo o mais é indeterminado. As relações internas sólidas, garantidas por uma moral, têm pouco valor para um homem cuja fantasia anseia por mudanças; e quando a exigência de realização exata e suprema se transfere do terreno intelectual para o das paixões, vê-se completamente, como dissemos, um resultado singular: as paixões desaparecem, e surge em seu lugar uma bondade semelhante ao fogo original.

Isso é a utopia da exatidão. Não saberemos como esse homem passará o seu dia, já que não pode ficar o tempo todo flutuando no ato da criação, e ele terá talvez sacrificado o fogo doméstico das sensações limitadas em troca de labaredas imaginárias. Mas esse homem exato existe hoje em dia! Como homem dentro do homem, ele vive não só no pesquisador, mas no comerciante, no organizador, no esportista, no técnico, embora por enquanto apenas naquelas principais atividades do dia que não consideram sua vida, mas sua profissão. Pois quem encara tudo tão radical e imparcialmente tem um grande medo de ser radical consigo mesmo; e certamente consideraria a utopia de si próprio uma tentativa imoral contra uma pessoa de ocupação séria.

(MUSIL, Robert. O homem sem qualidades. Tr. Lya Luft & Carlos Abbenseth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989)

Quanto mais palavras...

Essa postura mental tão arguta quanto ao que está próximo e tão cega para o todo tem sua mais importante expressão num ideal que se poderia chamar ideal da obra de uma vida que não conste de mais de três tratados. Há atividades intelectuais em que não são os grandes livros que fazem o orgulho de um homem, mas os pequenos tratados. Se, por exemplo, alguém descobrisse que em circunstâncias ainda não observadas as pedras podem falar, não precisaria senão de poucas páginas para descrever e explicar um fenômeno tão revolucionário. Em contrapartida, sobre as justas concepções morais se podem escrever livros e mais livros, e não se trata apenas de erudição, mas de um método, com o qual nunca conseguimos ter clareza quanto às questões mais importantes da vida. Poderíamos dividir as atividades humanas segundo a quantidade de palavras de que precisam; quanto mais palavras, tanto pior o caráter das atividades. Todos os conhecimentos através dos quais nossa espécie passou, das roupas de pele de animais até a aviação, não ocupariam, com suas provas acabadas, mais do que uma biblioteca de bolso; mas um armário de livros do tamanho da Terra não bastaria nem de longe para conter todo o resto, sem falar naquela discussão vastíssima que não se realizou com a pena mas com espadas e correntes. É de se pensar que conduzimos muito irracionalmente nossos assuntos humanos, se não os atacamos conforme a ciência, que teve um progresso tão exemplar.

(MUSIL, Robert. O homem sem qualidades. Tr. Lya Luft & Carlos Abbenseth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989)

Se existe senso de realidade, tem de haver senso de possibilidade

Quem deseja passar bem por portas abertas deve prestar atenção ao fato de elas terem molduras firmes: esse princípio, segundo o qual o velho professor sempre vivera, é simplesmente uma exigência do senso de realidade. Mas se existe senso de realidade, e ninguém duvida que ele tenha justificada existência, tem de haver também algo que se pode chamar senso de possibilidade.

Quem o possui não diz, por exemplo: aqui aconteceu, vai acontecer, tem de acontecer isto ou aquilo; mas inventa: aqui poderia, deveria ou teria de acontecer isto ou aquilo; e se lhe explicarmos que uma coisa é como é, ele pensa: bem, provavelmente também poderia ser de outro modo. Assim, o senso de possibilidade pode ser definido como capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser, e não julgar que aquilo que é seja mais importante do que aquilo que não é. Vê-se que as consequências dessa tendência criativa podem ser notáveis, e lamentavelmente não raro fazem parecer falso aquilo que as pessoas admiram, e parecer permitido o que proíbem, ou ainda fazem as duas coisas parecerem indiferentes. Essas pessoas com senso de possibilidade vivem, como se diz, numa teia mais sutil, feita de nevoeiro, fantasia, devaneio e condicionais; crianças com essa tendência são educadas para se libertarem dela, e lhes dizemos que tais pessoas são utopistas, sonhadores, fracos, e presunçosos ou críticos mesquinhos.

Quando os queremos elogiar, também chamamos esses loucos de idealistas, mas obviamente tudo isso apenas se relaciona aos espécimes frágeis, que não podem entender a realidade, ou talvez fujam dela; portanto, pessoas nas quais a ausência de senso de realidade é uma falha. Mas o possível não abrange apenas os sonhos de pessoas de nervos fracos, e sim os desígnios divinos ainda desconhecidos. Uma experiência possível, ou uma verdade possível, não são iguais à experiência real e verdade real menos o valor da realidade; ao contrário, ao menos do ponto de vista de seus seguidores, têm em si algo divino, um fogo, um voo, um desejo de construção e uma utopia consciente, que não teme a realidade mas a trata como missão e invenção. Afinal, a Terra não é velha, e aparentemente nunca foi muito abençoada. Se quisermos distinguir entre si as pessoas com senso de realidade e senso de possibilidade, basta pensar em determinada quantia de dinheiro. Tudo o que mil marcos contêm em possibilidades está ali contido, sem dúvida, não importa se possuímos os mil marcos ou não; o fato de o Sr. Eu ou o Sr. Você os possuírem acrescenta tão pouco aos mil marcos quanto acrescentaria a uma rosa ou uma mulher. Mas um louco os enfiará na meia, dizem as pessoas realistas, e um empreendedor há de realizar alguma coisa com eles; até a beleza de uma mulher sofrerá indubitavelmente acréscimo ou perda segundo quem a possua. É a realidade que traz as possibilidades, e nada mais errado do que negar isso. Mesmo assim, no total ou na média serão sempre as mesmas possibilidades repetidas, até chegar uma pessoa para a qual uma coisa real não signifique mais do que o imaginado. Será ela quem dará sentido e destinação às novas possibilidades, que há de provocar.

Mas um homem desses não é um caso muito claro. Já que, na medida em que não forem devaneios ociosos, suas ideias são apenas realidades ainda não nascidas, naturalmente também ele tem senso de realidade; mas é um senso para a realidade possível, e chega ao seu objetivo muito mais devagar do que o senso para possibilidades reais, que a maioria das pessoas possui. Ele deseja a floresta toda, o outro quer as árvores; e floresta é algo difícil de expressar, enquanto árvores significam tantos e tantos metros cúbicos de determinada qualidade. Ou talvez se exprima isso melhor de outro modo, e o homem com senso comum de realidade se assemelha a um peixe que abocanha o anzol sem ver a unha, enquanto o homem com aquele senso de realidade, que também se pode chamar senso de possibilidade, puxa uma linha pela água e não tem ideia se existe uma isca presa nela. Uma extraordinária indiferença em relação à vida que morde a isca traz consigo o perigo de fazer coisas totalmente aleatórias. Um homem sem senso prático — ele não apenas parece assim, mas é assim — é inconfiável e imprevisível no trato com as pessoas. Cometerá atos que lhe significam outra coisa do que para os demais, mas tudo o deixa tranquilo, desde que possa ser sintetizado numa ideia extraordinária. Além disso, ele hoje ainda está muito longe de ser consequente. É bem possível que um crime que prejudique a outros lhe pareça apenas um erro social, cuja culpa não cabe ao criminoso mas à ordem social. Mas é de duvidar que, recebendo uma bofetada, ele a considere insulto da sociedade, ou tão impessoal quanto lhe pareceria a mordida de um cão; provavelmente, primeiro ele devolverá a bofetada, depois pensará que não devia ter feito isso. E por fim, se lhe roubarem uma amada, ele hoje ainda não conseguirá ignorar inteiramente a realidade desse fato e consolar-se dessa perda com uma emoção nova e surpreendente. Essa evolução ainda está em curso, e para o indivíduo representa ao mesmo tempo fraqueza e força.

E como a posse de qualidades pressupõe certa alegria por serem reais, podemos entrever como uma pessoa que não tenha senso de realidade nem em relação a ela própria pode sentir-se de repente um homem sem qualidades.

(MUSIL, Robert. O homem sem qualidades. Tr. Lya Luft & Carlos Abbenseth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989)

A vida que nos cerca não tem conceitos de ordem

Recuperamos o dia que corre. A vida que nos cerca não tem conceitos de ordem. Os fatos do passado, os fatos das ciências particulares e os fatos da vida nos envolvem sem qualquer ordem. A filosofia popular e a discussão do dia contentaram-se com restos liberais de uma crença infundada na razão e no progresso, ou inventaram os fetiches familiares da época, da nação, da raça, do catolicismo e do homem da intuição, todos os quais têm em comum, do ponto de vista negativo, uma forma sentimental de denegrir o intelecto e, do ponto de vista positivo, a necessidade de um ponto de apoio, de gigantescos esqueletos fantasmáticos em que possamos pendurar as impressões, que são as únicas coisas de que ainda éramos constituídos. (...) Ao fazê-lo, tornamo-nos tão pouco corajosos no julgamento e na construção diretos, que adquirimos o hábito de ver até mesmo o presente de maneira histórica; tão logo surge um novo ismo, acreditamos haver nele um novo homem e, no fim de cada ano letivo, começa uma nova época!

(Robert Musil, Das hilflose Europa oder Reise vom Hundersten ins Tausendste, 1922.)

Provação

Eu estava comendo a mim mesma, que também sou matéria viva do sabath.

Não seria esta, embora muito mais do que esta, a tentação pela qual passavam os santos? E de onde aquele que seria ou não santo, sai ou não santificado. Desta tentação no deserto, eu, leiga, a insanta, sucumbiria ou sairia dela pela primeira vez como ser vivo.

- Escuta, existe uma coisa que se chama santidade humana, e que não é a dos santos.

Tenho medo de que nem o Deus compreenda que a santidade humana é mais perigosa que a santidade divina, que a santidade dos leigos é mais dolorosa. Embora o próprio Cristo tenha sabido que se com Ele haviam feito o que fizeram, conosco fariam muito mais, pois Ele dissera: “Se fizeram isto com o ramo verde, o que farão com os secos?

Provação. Agora entendo o que é provação. Provação:

significa que a vida está me provando. Mas provação: significa que eu também estou provando. E provar pode se transformar numa sede cada vez mais insaciável.

(Clarice Lispector. A Paixão segundo G.H.)

Deus está ocupado em ser

Quanto mais precisarmos, mais Deus existe. Quanto mais pudermos, mais Deus teremos. Ele deixa. Ele não nasceu para nós, nem nós nascemos para Ele; nós e Ele somos ao mesmo tempo.

Ele está ininterruptamente ocupado em ser, assim como todas as coisas estão sendo, mas Ele não impede que a gente se junte a Ele e, com Ele, fique ocupado em ser, numa intertroca tão fluida e constante - como a de viver. Ele, por exemplo, Ele nos usa totalmente porque não há nada em cada um de nós de que Ele, cuja necessidade é absolutamente infinita, não precise. Ele nos usa, e não impede que a gente faça uso Dele. O minério que está na terra não é responsável por não ser usado.

Na vida e na morte tudo é lícito, viver é sempre uma questão de vida-e-morte.

(Clarice Lispector. Excerto de "A Paixão Segundo GH")

Acontecer antes de acontecer

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.

Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar. A dor de dentes que perpassa esta história deu uma fisgada funda em plena boca nossa. Então eu canto alto agudo uma melodia sincopada e estridente – é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade. Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes.

(Clarice Lispector. Hora da Estrela)

Levo o sertão dentro de mim

GL: Esta invocação do sertão me lembra muito aquele famoso pedido de Ortega y Gasset de um Goethe dentro de si...

JGR: Sim, sim, concordo imediatamente. Pidiendo un Sertón desde dentro. Levo o sertão dentro de mim e o mundo no qual vivo é também o sertão. Estes são os paradoxos incompreensíveis, dos quais o segredo da vida irrompe como um rio descendo das montanhas. Mas esta comparação com a citação de Ortega y Gasset não foi tomada de tão longe como à primeira vista poderia parecer. Expondo-me ao perigo de que meus leitores alemães me apedrejem, ou, o que seria pior, não leiam meus livros por eu estar atentando contra o que eles têm de mais sagrado, eu lhe digo: Goethe nasceu no sertão, assim como Dostoievski,Tolstoi, Flaubert, Balzac; ele era, como os outros que eu admiro, um moralista, um homem que vivia com a língua e pensava no infinito. Acho que Goethe foi, em resumo, o único grande poeta da literatura mundial que não escrevia para o dia, mas para o infinito. Era um sertanejo. Zola, para tomar arbitrariamente um exemplo contrário, provinha apenas de São Paulo. De cada cem escritores, um está aparentado com Goethe e noventa e nove com Zola. A tragédia de Zola consistiu em que sua linguagem não podia caminhar no ritmo de sua consciência. Hoje em dia acontece algo semelhante. A consciência está desperta, mas falta o vigor da língua. A maldição dos costumes é notada e os autores aceitam sem crítica a chamada linguagem corrente, porque querem causar sensação, e isso não pode ser.

Metafísica de minha linguagem

GL: Uma vez você me disse que quando escreve quer se aproximar de Deus, às vezes demasiadamente. Certamente, isto também se relaciona com a língua. Como se deve entender isso?

JGR: Isto provém do que eu denomino a metafísica de minha linguagem, pois esta deve ser a língua da metafísica. No fundo é um conceito blasfemo, já que assim se coloca o homem no papel de amo da criação. O homem ao dizer: eu quero, eu posso, eu devo, ao se impor isso a si mesmo, domina a realidade da criação. Eu procedo assim, como um cientista que também não avança simplesmente com a fé e com pensamentos agradáveis a Deus. Nós, o cientista e eu, devemos encarar a Deus e o infinito, pedir-lhes contas, e, quando necessário, corrigi-los também, se quisermos ajudar o homem. Seu método é meu método. O bem-estar do homem depende do descobrimento do soro contra a varíola e as picadas de cobras, mas também depende de que ele devolva à palavra seu sentido original. Meditando sobre a palavra, ele se descobre a si mesmo. Com isto repete o processo da criação. Disseram-me que isto era blasfemo, mas eu sustento o contrário. Sim! a língua dá ao escritor a possibilidade de servir a Deus corrigindo-o, de servir ao homem e de vencer o diabo, inimigo de Deus e do homem. A impiedade e a desumanidade podem ser reconhecidas na língua. Quem se sente responsável pela palavra ajuda o homem a vencer o mal.

Guimarães Rosa. Excertos da entrevista de Guimarães Rosa a Günter Lorenz, constante da Introdução de Eduardo F. Coutinho da Obra Completa I, p. xxxi-lxv.

Não sou um revolucionário da língua

JGR: Você diz justamente o certo! Não sou um revolucionário da língua. Quem afirme isto não tem qualquer sentido da língua, pois julga segundo as aparências. Se tem de haver uma frase feita, eu preferia que me chamassem de reacionário da língua, pois quero voltar cada dia à origem da língua, lá onde a palavra ainda está nas entranhas da alma, para poder lhe dar luz segundo a minha imagem. Veja como se tornam insensatas as frases feitas, tais como “revolucionário” ou “reacionário”, quando as examinamos em função de sua utilidade, quando a gente as toma beim Wort nimmt, como dizem os alemães.

Guimarães Rosa. Excertos da entrevista de Guimarães Rosa a Günter Lorenz, constante da Introdução de Eduardo F. Coutinho da Obra Completa I, p. xxxi-lxv.

Um reacionário da língua

JGR: Esta reputação não me desagradaria; e mesmo, já disse antes, gostaria de ser considerado . Sou precisamente um escritor que cultiva a ideia antiga, porém sempre moderna, de que o som e o sentido de uma palavra pertencem um ao outro.Vão juntos. A música da língua deve expressar o que a lógica da língua obriga a crer. Nesta Babel espiritual de valores em que hoje vivemos, cada autor deve criar seu próprio léxico, e não lhe sobra nenhuma alternativa; do contrário, simplesmente não pode cumprir sua missão. Estes jovens tolos que declaram abertamente que não se trata mais da língua, que apenas o conteúdo tem valor, são pobres coitados dignos de pena. O melhor dos conteúdos de nada vale, se a língua não lhe faz justiça. O caso de Zola prova isso. E o conteúdo mais perigoso chega a ter uma função humana, se estiver expresso em uma linguagem poética, isto é, humana; Asturias é a prova. Esta língua, assim como o provam Asturias,Thomas Mann e Musil, esta língua atualmente deve ser pessoal, produto do próprio autor; porque o material linguístico existente e comum ainda basta para folhetos de propaganda e discursos políticos, mas não para a poesia, nem para pronunciar verdades humanas. Hoje, um dicionário é ao mesmo tempo a melhor antologia lírica. Cada palavra é, segundo sua essência, um poema. Pense só em sua gênese. No dia em que completar cem anos, publicarei um livro, meu romance mais importante: um dicionário.Talvez um pouco antes. E este fará as vezes de minha autobiografia.

Guimarães Rosa. Excertos da entrevista de Guimarães Rosa a Günter Lorenz, constante da Introdução de Eduardo F. Coutinho da Obra Completa I, p. xxxi-lxv.

Mais possibilidade de expressão

JGR: Nunca me contento com alguma coisa. Como já lhe revelei, estou buscando o impossível, o infinito. E, além disso, quero escrever livros que depois de amanhã não deixem de ser legíveis. Por isso acrescentei à síntese existente a minha própria síntese, isto é, incluí em minha linguagem muitos outros elementos, para ter ainda mais possibilidade de expressão.

Guimarães Rosa. Excertos da entrevista de Guimarães Rosa a Günter Lorenz, constante da Introdução de Eduardo F. Coutinho da Obra Completa I, p. xxxi-lxv.

Meu método e meu idioma

Primeiro, há meu método que implica na utilização de cada palavra como se ela tivesse acabado de nascer, para limpá-la das impurezas da linguagem cotidiana e reduzi-la a seu sentido original. Por isso, e este é o segundo elemento, eu incluo em minha dicção certas particularidades dialéticas de minha região, que são linguagem literária e ainda têm sua marca original, não estão desgastadas e quase sempre são de uma grande sabedoria linguística. Além disso, como autor do século XX, devo me ocupar do idioma formado sob a influência das ciências modernas e que representa uma espécie de dialeto. E também está à minha disposição esse magnífico idioma já quase esquecido: o antigo português dos sábios e poetas daquela época dos escolásticos da Idade Média, tal como se falava, por exemplo, em Coimbra. E ainda poderia citar muitos outros, mas isso nos levaria muito longe. Seja como for, tenho de compor tudo isto, eu diria “compensar”, e assim nasce então meu idioma que, quero deixar bem claro, está fundido com elementos que não são de minha propriedade particular, que são acessíveis igualmente para todos os outros.

Guimarães Rosa. Excertos da entrevista de Guimarães Rosa a Günter Lorenz, constante da Introdução de Eduardo F. Coutinho da Obra Completa I, p. xxxi-lxv.

Uma equação com várias incógnitas

Olhe, Lorenz, não seria tão errado reduzir todas as ciências a uma lei básica, como fizeram os escolásticos e cientistas medievais. Não, eu não quis evocar a teologia. Mas quero pintar um panorama que, no fundo, delineia todos os problemas intelectuais da atualidade. Olhe o futuro da Europa e de toda a humanidade: é como uma equação com várias incógnitas.

Guimarães Rosa. Excertos da entrevista de Guimarães Rosa a Günter Lorenz, constante da Introdução de Eduardo F. Coutinho da Obra Completa I, p. xxxi-lxv.