Seleção de citações em PERRY, Whitall N. A Treasury of Traditional Wisdom. Cambridge: Quinta Essentia, 1991
Nenhuma profecia da escritura é de particular interpretação.
II. Pedro, I. 20
A revelação traz o indivíduo, que é genericamente falível, em contato com o domínio supraindividual, por definição infalível.
Na Índia, é o Matsya-avatâra que, no início do ciclo presente ou Mahâyuga, revela (‘desvela’) o Vêda, ‘pelo qual deve ser entendida a Ciência preeminente, seguindo a significação etimológica desta palavra (derivada da raiz vid, “saber”), ou o Conhecimento sagrado em sua integralidade: e eis uma alusão particularmente clara à Revelação primordial, ou à origem “não-humana” da Tradição. Diz-se que o Vêda dura perpetuamente, sendo em si anterior a todos os mundos; mas de algum modo está escondido ou envolto durante os cataclismos cósmicos que separam os diferentes ciclos, e deve consequentemente ser manifestado novamente. A afirmação da perpetuidade do Vêda está, ademais, em relação direta com a teoria cosmológica da primordialidade do som entre as qualidades sensíveis (como a qualidade própria do éter, âkâsha, que é o primeiro dos elementos); e esta teoria não é realmente diferente daquela que outras tradições expressam ao falar da criação pela palavra: o som primordial é a Palavra Divina pela qual, de acordo com o primeiro capítulo do Gênesis Hebraico, todas as coisas foram feitas. É por isso que se diz que os Rishis ou sábios dos primeiros tempos “ouviram” o Vêda: a Revelação, sendo uma obra da Palavra como a própria criação, é realmente uma “audição” para a pessoa que a recebe’ (René Guénon: ‘Quelques aspects du symbolisme du poisson’, Études Trad., Fev., 1936).
A natureza abrangente desta ‘audição’ é enfatizada por Guénon em outra passagem, aludindo à ‘Noite do Decreto’ (laylatu ’l-qadr) na qual o Alcorão é revelado: ‘Esta “noite”, seguindo o comentário de Mohyiddin ibn Arabi, é identificada com o próprio corpo do Profeta. O que é particularmente notável aqui é que a “revelação” é recebida, não na mente, mas no corpo do ser que é “delegado” para expressar o Princípio: Et Verbum caro factum est, diz igualmente o Evangelho (caro e não mens), e eis outra expressão que é o equivalente exato, na forma própria à tradição cristã, do que laylatu ’l-qadr representa na tradição islâmica’ (‘Les deux nuits’, Études Trad., 1939, p. 161).
De uma perspectiva mais estritamente microcósmica, a Revelação pode ser considerada como ‘uma comunicação direta com os estados superiores....A possibilidade desta “Revelação” baseia-se na existência de faculdades que são transcendentais ao indivíduo. Qualquer nome que lhes seja dado, seja que se fale, por exemplo, de “intuição intelectual” ou “inspiração”, é sempre a mesma coisa no final. O primeiro destes dois termos traz à mente, de certo modo, os estados “angélicos”, que de fato são idênticos aos estados supraindividuais do ser, enquanto o segundo recorda mais particularmente aquela ação do Espírito Santo à qual Dante alude expressamente (De Monarchia, III. 16). Poder-se-ia também dizer que o que é “inspiração” interiormente, para a pessoa que a recebe diretamente, torna-se “Revelação” exteriormente, para a coletividade humana a quem é transmitida através de sua mediação, na medida em que tal transmissão é possível, a saber, na medida em que pode ser expressa’ (Guénon: Autorité spirituelle et Pouvoir temporel, pp. 100–101).
É essencial compreender o significado do intelecto se se quiser apreender a doutrina da Revelação. ‘O intelecto é uma faculdade receptiva e não um poder produtivo: ele não “cria”; recebe e transmite. É um espelho que reflete a realidade de uma maneira adequada e portanto eficaz. Com a maioria dos homens na “idade das trevas”, o intelecto está atrofiado a ponto de ser reduzido a uma simples virtualidade’ (Frithjof Schuon: ‘Orthodoxie et intellectualité’, Études Trad., 1954, p. 211).
‘O que é Revelação para “uma humanidade” será analogamente intelecção para um indivíduo, e vice-versa. Se todo homem possuísse intelecto, não meramente em um estado fragmentário ou virtual, mas como uma faculdade plenamente desenvolvida, não haveria Revelação, pois a intelecção total seria algo natural; mas como este não é o caso desde o fim da Idade do Ouro, a Revelação não apenas é necessária mas mesmo normativa no que concerne à intelecção particular, ou antes, no que concerne à sua expressão formal. Não há intelectualidade possível fora de uma linguagem revelada, uma tradição oral ou scriptural, mesmo que a intelecção possa acontecer como um milagre isolado onde quer que a faculdade intelectiva exista; mas uma intelecção extra-tradicional não terá nem autoridade nem eficácia....A Revelação para o intelecto funciona como um princípio de atualização, expressão e verificação’ (Schuon: ‘De la foi’, Études Trad., 1953, pp. 348–349).
O Mediador como Pontifex, identificado com o Eixo do Mundo e assim efetuando contato com os estados superiores através de sua função de ponte ou caminho, é o veículo por excelência da Revelação. ‘O Rei é agora em realidade uma “Alteza”; suas ações não são mais determinadas pelos gostos e desgostos de sua parte sensitiva (necessitas coactionis), mas instigadas interiormente, e sendo assim, estritamente falando, “inspiradas”, participam da “infalibilidade” de tudo que procede ex cathedra, “do tripé da verdade”; o fardo da responsabilidade transferido para outros ombros não mais acrescenta à soma de sua mortalidade e podemos dizer: “Ó Rei, vive para sempre”. Quando se fala de um Rei como “Sua Serena Alteza”, fala-se precisamente da qualidade verdadeiramente real de auto-posse pela qual um Rei, se for realmente um Rei, é de fato “exaltado”.
‘Assim, do ponto de vista da teoria sociológica indiana e de toda política tradicional, uma tirania individual, seja a de um déspota, a de um artista emancipado, ou a do homem auto-expressivo ou da mulher auto-suficiente, efetiva a longo prazo apenas o que é ineficaz (akrtâni, “más ações”): toda auto-importância leva à desintegração e finalmente à morte do corpo político, coletivo ou individual. A essência da política tradicional resume-se a isto, que o “Auto-governo” (svarâj) depende do auto-controle (âtmasaṁyama), o Governo da governabilidade’ (Coomaraswamy: Spiritual Authority and Temporal Power in the Indian Theory of Government, p. 85).
‘Mas onde se encontra ainda a noção de uma hierarquia real no mundo moderno? Nada e ninguém está mais no lugar certo; os homens não reconhecem mais qualquer autoridade efetiva na ordem espiritual ou qualquer poder legítimo na temporal; os “profanos” presumem discutir o que é sagrado, e contestar seu carácter e mesmo sua existência; o inferior julga o superior, a ignorância estabelece limites à sabedoria, o erro prevalece sobre a verdade, o humano suplanta o divino, a terra ultrapassa o céu, o indivíduo estabelece a medida para todas as coisas e alega ditar ao universo leis tiradas inteiramente de sua própria razão relativa e falível’ (Guénon: The Crisis of the Modern World, p. 99; tr. Arthur Osborne).
A infalibilidade relaciona-se com a doutrina: ‘Se a doutrina é infalível, é porque é uma expressão da verdade, que em si é absolutamente independente dos indivíduos que a recebem e que a compreendem. A garantia da doutrina reside fundamentalmente em seu carácter “não-humano”; e pode-se dizer ademais que toda verdade, a que ordem pertença, se tomada do ponto de vista tradicional, participa deste carácter, pois é verdade apenas porque adere a princípios superiores e é derivada como uma consequência mais ou menos imediata deles, ou da aplicação a um domínio determinado. A verdade nunca é feita pelo homem, como os “relativistas” e “subjetivistas” modernos querem, mas é pelo contrário imposta a ele, ainda que não “de fora” à maneira de uma restrição “física”, mas na realidade “de dentro”, pois o homem obviamente é obrigado a “reconhecer” a verdade apenas se primeiro a “conhece”, isto é, se ela o penetrou e se ele a assimilou realmente’ (Guénon: Aperçus sur l’Initiation, p. 291).
A infalibilidade relaciona-se com a gnose: ‘Segue-se disso que todo homem será infalível quando expressar uma verdade que ele realmente conhece, a saber, com a qual está identificado; mas não enquanto é um indivíduo humano será infalível, mas enquanto, por razão desta identificação, representa de certo modo esta verdade mesma. Estritamente, dever-se-ia dizer em tal caso, não que ele expressa a verdade, mas antes que a verdade é expressa através dele’ (id., p. 292).
A infalibilidade relaciona-se com a eficácia ritual: ‘Esta eficácia é essencialmente inerente aos próprios ritos, na medida em que são os meios de ação de uma influência espiritual. O rite portanto age independentemente da qualidade como tal do indivíduo que o executa, e sem que ele mesmo tenha que estar efetivamente consciente desta eficácia’ (id., p. 293).
‘Deve-se também afirmar precisamente que a infalibilidade doutrinal, tal como foi definida, é necessariamente limitada, assim como a função à qual se prende, e isto de várias maneiras: antes de tudo, só pode ser aplicada no interior da forma tradicional à qual esta função se relaciona, e é inexistente em respeito a tudo que pertence a qualquer outra forma tradicional; em outras palavras, ninguém pode pretender julgar uma tradição em nome de outra tradição....Em segundo lugar, se uma função pertence a uma certa ordem determinada, acarretará infalibilidade apenas no que concerne a esta ordem....Para além dos limites legítimos que convêm a cada caso, não há mais infalibilidade, pois não há então nada a que possa ser validamente aplicada’ (id., pp. 296–297).
A Revelação Avatárica distingue-se por suas proporções cósmicas, sendo global, abrangente e única, como pode ser visto na completa originalidade de cada forma tradicional em relação a outra.
As inspirações dos santos e sábios dentro de cada forma carregam dimensões e desenvolvimentos diferentes sempre homogêneos e em termos daquela forma, sem jamais violar a coesão doutrinal e ritual própria daquela forma.
Todo o resto é fragmentário, imperfeito ou errôneo. Nenhum falso profeta jamais produziu algo universal e único, mas apenas um empréstimo de, distorção ou inversão de alguma forma já existente.
Pode-se dizer que a Revelação em sua totalidade permite-nos ver o mundo, o cosmos, a humanidade e as criaturas com Visio Divina, por assim dizer, dando-nos padrões de conhecimento e ação que suplantam toda opinião e conjectura humana qualquer que seja.