GILIS, Charles-André. Marie en Islam. Paris: Éd. traditionnelles, 1990
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O significado de "Islam" e a sua ilustração pela servidão de Maria
- O termo "Islam" significa, em árabe, submissão à Vontade divina, sendo que Maria, enquanto "serva", ilustra e representa essa obediência perfeita tanto na religião cristã, ao declarar "eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a vossa palavra", quanto na tradição islâmica, onde a maioria dos comentaristas corânicos explica o sentido do nome Maryam pelo termo ‘âbida.
- O conceito de ‘âbida implica muito mais que uma submissão exterior à Religião de Allah sob o seu aspecto formal e legal, constitutivo do Islam no sentido estrito, designando, do ponto de vista espiritual, a pura adoradora, cujo ser interior e exterior é consagrado inteiramente a Deus: destinado a Deus, purificado por Ele e para Ele.
- Este aspecto, contudo, não esgota o conteúdo da servidão no Islam, a qual se reporta, segundo a sua significação essencial, à realização metafísica, exprimindo uma dimensão fundamental e característica da função profética, como indica a fórmula desenvolvida do Testemunho de Fé: "Eu testemunho que não há Deus senão Allah, Ele só, não tem associado. Eu testemunho que Muhammad é Seu servo e Seu Enviado."
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A proclamação de Maria como "serva do Senhor" e a concepção islâmica da Senhoria divina
- Na sua resposta à Saudação angélica, o termo "serva" não é o único a reter a atenção, pois Maria proclama-se "serva do Senhor", levantando interrogações sobre a identidade desse Senhor e sobre a quem ou a que Ele é Senhor, questões que se impõem quando o sentido dessa palavra mariana é considerado no Islam.
- Segundo os dados fundamentais da tradição islâmica, e em particular no Alcorão, que é a Palavra de Allah, o Senhor nunca é considerado de maneira absoluta como o é no Cristianismo, sendo Allah, enquanto Senhor (Rabb), sempre determinado pela relação particular que possui com o objeto da Sua senhoria: o Senhor dos mundos, o Senhor dos Céus e da Terra, nosso Senhor, seu Senhor.
- Todo o "senhor" é relativo ao ponto que Allah — glória à Sua Transcendência! — quando considerado enquanto Mestre supremo, é ainda designado não como o Senhor, mas como o "Senhor dos Senhores" (Rabbu-l-arbâb).
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A doutrina cristã relativa ao Senhor e as interrogações suscitadas pela resposta de Maria
- No Cristianismo, a doutrina relativa ao Senhor é aparentemente menos complexa, como no Símbolo de Niceia, que parece reconhecer apenas "um só Senhor: Jesus-Cristo" (unum Dominum Jesum Christum), ainda que o mesmo Símbolo atribua essa qualidade ao Espírito Santo, dito "Senhor e Vivificador" (Dominum et vivificantem), sem menção a propósito do Pai.
- A resposta de Maria permanece surpreendente, questionando-se se ela se proclama, desde esse momento, serva do Anunciado, se é serva de seu filho antes de ser sua mãe, se era a Ele que servia no Templo, já em Jerusalém, e se é d'Ele ainda que trata uma inscrição que o Apocalipse põe em relação com o Verbo de Deus: "Sobre o seu vestuário e sobre a sua coxa, trazia escrito este nome: Rei dos Reis e Senhor dos Senhores", inscrição que recorda singularmente os termos que o Islam utiliza para exprimir a Senhoria suprema de Allah.
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A definição da abordagem pela Ciência sagrada em contraste com as limitações da teologia
- As interrogações conduzem ao cerne do assunto e permitem definir desde já a abordagem que será a do estudo, a qual pretende tratar a questão da "presença marial" no Islam unicamente do ponto de vista da Ciência sagrada, única capaz, graças à sua ilimitação e universalidade, de mostrar a sua significação espiritual e iniciática verdadeira.
- É importante insistir nesse ponto, face à constatação de uma ignorância constante, mesmo entre os que esperam um reerguimento tradicional do Ocidente, acerca do que o ensino metafísico implica de essencial, tanto do ponto de vista da pura doutrina quanto daquele dos métodos que concernem à realização, onde, nos casos menos desfavoráveis, só se encontram considerações puramente especulativas.
- Recorda-se, na sua integralidade, a declaração feita por René Guénon em 1925, na sua conferência na Sorbonne sobre A Metafísica oriental: "Nas condições intelectuais em que se encontra atualmente o mundo ocidental, a metafísica é coisa esquecida, ignorada em geral, perdida quase inteiramente, enquanto, no Oriente, é sempre o objeto de um conhecimento efetivo."
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A escolha do tema da Virgem Maria e a sua relação com as tradições metafísicas do Ocidente
- A escolha de escrever sobre a Virgem Maria deve-se precisamente ao seu papel eminente, nomeadamente do ponto de vista iniciático, nas "antigas tradições metafísicas que puderam existir no Ocidente".
- Propõe-se estudar o aspecto principial e universal que Maria representa, deixando de lado toda a "história das religiões" e a história comparada dos episódios da vida da Virgem, recordando que "os fatos históricos também se conformam necessariamente à lei de correspondência (que é 'o fundamento mesmo de todo o simbolismo'), e por isso mesmo, traduzem segundo o seu modo as realidades superiores, de que são de algum modo uma expressão humana."
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A natureza da metafísica tradicional e a excelência da tradição islâmica
- As doutrinas metafísicas não podem ser compreendidas nem interpretadas validamente por meio da especulação racional, sendo o recurso a esta interdito no Islam, conforme o hadîth "Não useis de reflexão a propósito da Essência" (Là tafakkarû ‘alâ-dh-Dhât), que faz eco à palavra corânica: "Allah admoesta-vos a vós mesmos." (Cor. 3:28 e 30).
- A metafísica "oriental" a que Guénon se refere é, antes de tudo, uma metafísica tradicional que tira a sua origem da Ciência principial e primordial, fonte de todas as Revelações particulares, cujos modos e meios de expressão foram objeto de uma Confirmação e de uma Bênção divinas.
- A tradição islâmica goza de uma dupla excelência: a da totalidade, por ter recebido em herança o conjunto das ciências e dos louvores contidos nas tradições anteriores e recapitular os seus ensinamentos metafísicos e espirituais; e a da atualidade, por ser a última revelação destinada à presente humanidade terrestre e dispor assim, nomeadamente na ordem doutrinal, dos meios de graça mais oportunos e adequados.
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O distanciamento crítico face ao diálogo islamo-cristão contemporâneo
- O estudo pretende manter-se alheio ao suposto "diálogo" islamo-cristão, considerado um diálogo de surdos se se tratar de confrontar dois exoterismos, sendo significativas a esse respeito as observações de Abd al Jalîl no seu livro Maria e o Islam, que se queixa da ausência de uma "démarche compensatória" por parte dos muçulmanos.
- Se o "espírito de conciliação" devesse portar sobre outra coisa que não o "acordo sobre os princípios" mencionado por Guénon, traduziria uma tendência funesta e uma incompreensão do verdadeiro espírito de universalidade tradicional, não fazendo sentido deplorar que os "fatos dogmáticos" do Cristianismo tenham permanecido estranhos aos muçulmanos, pois a assimilação destes como tal implicaria a sua conversão ao Cristianismo.
- Existe uma tendência para reduzir as possibilidades doutrinais do Islam e só reter os aspectos familiares, a fim de os "justapor" mais comodamente, não à religião cristã, mas à ideia que dela se faz, negando as possibilidades de síntese universal inerentes ao seu esoterismo, atitude cujos limites se marcam ao intitular o estudo "Maria no Islam".
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A justificação metafísica do estudo de Maria no Islam como ciência de Allah
- A Ciência sagrada no Islam é essencialmente a Ciência de Allah, a Ciência de que Allah — glória à Sua Transcendência! — é a origem e o fim, aquela de que Ele é, ao mesmo tempo, a essência e o objeto, sendo, para Ibn Arabi, toda a ciência que não é a Ciência de Allah (al-‘ilm bi-Llâhi) uma "perda de tempo".
- A ciência de "Maria no Islam" justifica-se, do ponto de vista metafísico, apenas enquanto é, ela também, uma ciência de Allah, um aspecto particular da Ciência de Allah, justificação que se opera facilmente pelo facto de Maria ser, com Fátima, Khadîja e Asiya, uma das quatro mulheres a quem a tradição islâmica reconhece o grau da perfeição, sendo por si mesma uma manifestação essencial de Allah.
- Ibn Arabi faz uma alusão direta a este aspecto supremo da "realização" marial ao comentar o versículo "Se Nós tivéssemos querido tomar um filho (lahwan), tê-lo-íamos tomado a partir de Nós (min ladun-Nâ): se Nós o tivéssemos feito!" (Cor. 27:17) no sentido: "Se Nós o tivéssemos feito: isto é, de tomar um filho a partir de outro que Nós, pois, ele é Filho de Maria."
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A excelência particular de Maria entre as mulheres perfeitas e a sua função universal
- Mesmo a esse grau de perfeição, Maria goza de uma excelência particular, confirmada por outra palavra profética: "A Senhora (sayyida) das mulheres dos mundos, é Maryam; depois Fátima, depois Khadîja, depois Asiya", excelência suprema indicada na revelação cristã pela Saudação angélica — "Vós sois bendita entre todas as mulheres" — e no Alcorão pelas palavras dos Anjos: "Ó Maryam, em verdade Allah elegeu-te, purificou-te e preferiu-te às mulheres dos mundos (nisâ’ al-‘âlamîna)" (Cor. 5:42).
- A menção, tipicamente corânica, dos "mundos" marca, mais ainda que a fórmula cristã, o caráter universal da função marial, sendo o termo nisâ’ interpretado em doutrina akbariana mediante a noção de infi'âl, que designa em árabe o princípio "passivo" da manifestação.
- A origem principial e supra-individual desta função é indicada noutro versículo pelo fato de Maria não ser nomeada: "E aquela que preservou a sua virgindade e em que Nós insuflámos do Nosso Espírito; e Nós fizemos dela e do seu filho um sinal para os mundos" (Cor. 21:91).
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A manifestação de um aspecto fundamental do Verbo eterno por Maria e a sua dimensão iniciática
- Segundo a realidade verdadeira do seu ser, Maria manifesta um aspecto fundamental do Verbo eterno, expresso, ele também, na mesma sura: "Nós te enviamos (arsalnâka) apenas como uma misericórdia para os mundos (rahmatan li-l-‘âlamîna)" (Cor. 27:107).
- A "Missão divina" (risala) apresenta com a Virgem uma relação estreita, sublinhada aqui pelo termo rahma, que evoca a ideia de "matriz" e encerra uma conotação feminina e materna, sendo fácil compreender que esta função comporta, no Islam como em todas as tradições metafísicas completas, uma dimensão propriamente iniciática, cuja presença misteriosa e raramente visível se manifesta não obstante de modo constante.