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id da página: 4108 Máximo o Confessor – Centúria sobre a Caridade 4 Maximo

Maximo Caridade 4

Máximo o Confessor — Centúrias sobre a Caridade 4


''Tradução em grande parte feita a partir da versão inglesa da Philokalia, mas eventualmente utilizando a versão francesa.

1. O intelecto primeiro se maravilha quando ele reflete sobre a infinidade absoluta de Deus, aquele mar sem limites pelo qual ele anseia tanto. Depois ele se espanta com a forma com que Deus trouxe coisas à existência a partir do nada. Mas assim como Sua magnificência é sem limite (Sal. 145:3. LXX), da mesma forma não há como penetrar Seus propósitos (Is. 40:28).

2. Como pode o intelecto não se maravilhar quando ele contempla aquele imenso e mais que espantoso mar de bondade? Ou como ele não se espanta quando ele reflete sobre como e de que fonte vieram à existência tanto a natureza dotada de inteligência e intelecto, quanto os quatro elementos que compõem corpos físicos, embora nenhuma matéria existisse antes de sua geração? Que tipo de potencialidade era esta que, uma vez atualizada, trouxe estas coisas à existência? Mas tudo isso não é aceito por aqueles que seguem os filósofos gregos pagãos, ignorantes como eles são daquela bondade onipotente e sua sabedoria e conhecimento eficazes, transcendendo o intelecto humano.

3. Deus é o Criador desde toda a eternidade, e Ele cria quando Ele quer, em Sua infinita bondade, através de Seu Logos e Espírito coessenciais. Não levantais a objeção: Por que Ele criou em um momento particular já que Ele é bom desde toda a eternidade? Porque eu respondo que a sabedoria insondável da essência infinita não entra no alcance do conhecimento humano.

4. Quando o Criador quis, Ele deu o ser e manifestou aquele conhecimento de coisas criadas que já existia nEle desde toda a eternidade. Porque no caso do onipotente Deus é ridículo duvidar que Ele pode dar o ser a qualquer coisa quando Ele o quer.

5. Tentai aprender por que Deus criou; porque este é o conhecimento verdadeiro. Mas não tenteis aprender como Ele criou ou por que Ele o fez relativamente recentemente; porque isto não entra no alcance de vosso intelecto. De realidades divinas algumas podem ser apreendidas por homens e outras podem não o ser. A especulação desenfreada, como um dos santos disse, pode conduzir um de roldão sobre o precipício.

6. Alguns dizem que a ordem criada coexistiu com Deus desde a eternidade; mas isto é impossível. Porque como podem coisas que são limitadas de toda forma coexistir desde a eternidade com Aquele que é de todo infinito? Ou como elas são de fato criações se elas são coeternas com o Criador? Esta noção é tirada dos filósofos gregos pagãos, que afirmam que Deus não é de forma nenhuma o criador do ser mas apenas de qualidades. Nós, contudo, que conhecemos o onipotente Deus, dizemos que Ele é o criador não apenas de qualidades mas também do ser de coisas criadas. Se isto é assim, coisas criadas não coexistiram com Deus desde a eternidade.

7. A divindade e as realidades divinas são em alguns aspectos cognoscíveis e em alguns aspectos incognoscíveis. Elas são cognoscíveis na contemplação do que pertence à essência de Deus e incognoscíveis no que diz respeito a esta essência ela mesma.

8. Não procureis por condições e propriedades na essência simples e infinita da Sanctissima Trinitas; do contrário vós A tornareis composta como seres criados, uma coisa ridícula e blasfema a fazer no caso de Deus.

9. Apenas o Ser infinito, onipotente e criador de todas as coisas, é simples, único, sem qualificação, pacífico e estável. Toda criatura, consistindo como ela o faz de ser e acidente, é composta e sempre em necessidade de providência divina, porque ela não é livre da mudança.

10. Tanto a natureza inteligível quanto a sensível, em sendo trazidas à existência por Deus, receberam potências para apreender seres criados. A natureza inteligível recebeu potências de intelecção, e a natureza sensível potências de percepção pelos sentidos.

11. Deus é apenas participado em. A criação tanto participa quanto comunica: ela participa no ser e no bem-estar, mas comunica apenas o bem-estar. Mas a natureza corporal comunica isto de uma forma e a natureza incorpórea de uma outra.

12. A natureza incorpórea comunica o bem-estar em falando, em agindo, e em sendo contemplada; a natureza corporal apenas em sendo contemplada.

13. Existir ou não eternamente para uma natureza dotada de inteligência e intelecto depende da vontade do Criador cuja cada criação é boa; mas ser boa ou má para tal natureza depende de sua própria vontade.

14. O mal não é a ser imputado à essência de seres criados, mas à sua motivação errônea e sem mente.

15. A motivação de uma alma está ordenada corretamente quando sua potência desejante está subordinada ao autocontrole, quando sua potência incisiva rejeita o ódio e se apega ao amor, e quando sua potência de inteligência, por meio de oração e contemplação espiritual, avança para com Deus.

16. Se em tempo de provação um homem não suporta pacientemente suas aflições, mas se corta do amor de seus irmãos espirituais, ele ainda não possui amor perfeito ou um conhecimento profundo da providência divina.

17. O objetivo da providência divina é o de unir por meio de verdadeira e amor espiritual aqueles separados de várias formas pelo vício. De fato, o Salvador suportou Seus sofrimentos para que Ele ajuntasse em um os filhos espalhados de Deus (João 11: 52). Assim, aquele que não suporta resolutamente a dificuldade, não suporta a aflição, e não sustenta pacientemente a dureza, se extraviou do caminho do amor divino e do propósito da providência.

18. Se o amor é longânimo e gentil (I Cor. 13:4), um homem que é pusilânime em face de suas aflições e que portanto se comporta iniquamente para com aqueles que o ofenderam, e para de os amar, com certeza se desvia do propósito da providência divina.

19. Vigia a ti mesmo, para que o vício que te separa de teu irmão não resida nele mas em ti mesmo. Reconcilia-te com ele sem demora, para que tu não te desvies do mandamento do amor.

20. Não mantenhas o mandamento do amor em desprezo, porque por meio dele tu te tornarás um filho de Deus. Mas se tu o transgrides, tu te tornarás um filho da Geena.

21. O que nos separa do amor de amigos é invejar ou ser invejado, causar ou receber dano, insultar ou ser insultado, e pensamentos suspeitosos. Quisera Deus que tu jamais tivesses feito ou experimentado algo disto e desta forma te separado do amor de um amigo.

22. Um irmão foi a ocasião de alguma provação para ti e teu ressentimento te conduziu ao ódio? Não te deixes ser superado por este ódio, mas o conquista com o amor. Tu terás sucesso nisto em orando a Deus sinceramente por teu irmão e em aceitando sua desculpa; ou então em o conciliando com uma desculpa tu mesmo, em te encarando como responsável pela provação e em esperando pacientemente até que a nuvem tenha passado.

23. Um homem longânimo é um que espera pacientemente por sua provação a terminar e espera que sua perseverança será recompensada.

24. O homem longânimo abunda em entendimento (Prov. 14:29), porque ele suporta tudo até o fim e, enquanto aguarda este fim, suporta pacientemente sua angústia. O fim, como São Paulo diz, é a vida eterna (cf. Rom. 6:22). E esta é a vida eterna, que eles possam conhecer a Ti, o so Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo a quem Tu enviaste (João 17:3).

25. Não descartes levianamente o amor espiritual: para os homens não há nenhum outro caminho para o salvamento.

26. Porque hoje um assalto do diabo incitou algum ódio em ti, não julgues como baixo e ímpio um irmão a quem ontem tu encaravas como espiritual e virtuoso; mas com amor longânimo te detém sobre a bondade que tu percebeste ontem e expulsa o ódio de hoje de tua alma.

27. Não condenes hoje como baixo e ímpio o homem a quem ontem tu louvaste como bom e recomendaste como virtuoso, mudando de amor para ódio, porque ele te criticou; mas mesmo que tu ainda estejas cheio de ressentimento, o recomenda como antes, e tu logo recuperarás o mesmo amor salvador.

28. Quando conversas com outros irmãos, não adulterares teu louvor usual de um irmão em sorrateiramente introduzindo censura na conversa porque tu ainda abrigas algum ressentimento escondido contra ele. Pelo contrário, na companhia de outros dá louvor sem mistura e ora por ele sinceramente como se tu estivesses orando por ti mesmo; então tu serás logo libertado deste ódio destrutivo.

29. Não digas, Eu não odeio meu irmão, quando tu simplesmente apagas o pensamento dele de tua mente. Ouve Moisés, que disse, Não odeis teu irmão em tua mente; mas o reprova e tu não incorrerás em pecado por meio dele (Lev. 19:17. LXX).

30. Se um irmão por acaso é tentado e persiste em te insultar, não sejas expulso de teu estado de amor, mesmo que o mesmo mau demônio perturbe tua mente. Tu não serás expulso daquele estado se, quando injuriado, tu abençoas; quando caluniado, tu louvas; e quando enganado, tu manténs tua afeição. Este é o caminho da filosofia do Cristo: se tu não o segues tu não compartilhas Sua companhia.

31. Não penses que aqueles que te trazem relatos que te enchem de ressentimento e te fazem odiar teu irmão são dispostos afetuosamente para contigo, mesmo se eles parecem falar a verdade. Pelo contrário, te vira para longe deles como se eles fossem serpentes venenosas, para que tu possas tanto os impedir de proferir calúnias quanto libertar tua própria alma da iniquidade.

32. Não irrites teu irmão em falando com ele equivocadamente; do contrário tu podes receber o mesmo tratamento dele e assim expulsar tanto teu amor quanto o dele. Antes, o repreende franca e afetuosamente, assim removendo os motivos para ressentimento e libertando tanto ele quanto tu mesmo de tua irritação e angústia.

33. Examina tua consciência escrupulosamente, no caso de ser tua falta que teu irmão ainda está hostil. Não trapaceies tua consciência, porque ela conhece teus segredos, e na hora de tua morte ela te acusará e em tempo de oração ela será um obstáculo para ti.

34. Em tempos de relações pacíficas não recordes o que foi dito por um irmão quando havia mau sentimento entre vós, mesmo se coisas ofensivas foram ditas para tua cara, ou para uma outra pessoa a teu respeito e tu subsequentemente ouviste delas. Do contrário tu abrigarás pensamentos de rancor e reverterás para teu ódio destrutivo para com teu irmão.

35. A alma deiforme não pode nutrir ódio contra um homem e no entanto estar em paz com Deus, o doador dos mandamentos. Porque, Ele diz, se tu não perdoas a homens suas faltas, teu Pai celestial tampouco te perdoará tuas faltas (cf. Mat. 6:14-15). Se teu irmão não deseja viver pacificamente contigo, no entanto guarda a ti mesmo contra o ódio, orando por ele sinceramente e não o abusando para com qualquer um.

36. A paz perfeita dos anjos santos reside em seu amor para com Deus e seu amor uns para com os outros. Este é também o caso com todos os santos desde o começo do tempo. Com o mais de verdade portanto é dito que nestes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas (Mat. 22:40).

37. Para de agradar a ti mesmo e tu não odiarás teu irmão; para de amar a ti mesmo e tu amarás Deus.

38. Uma vez que tu decidiste compartilhar tua vida com irmãos espirituais, renuncia a teus próprios desejos desde o começo. A menos que tu faças isto tu não serás capaz de viver pacificamente nem com Deus nem com teus irmãos.

39. Aquele que alcançou amor perfeito, e ordenou sua vida inteira de acordo com ele, é a pessoa que diz Senhor Jesus no Espírito Santo (cf. I Cor. 12:3).

40. O amor para com Deus sempre aspira a dar asas ao intelecto em sua comunhão com Deus; o amor para com o vizinho faz que se pense sempre bons pensamentos a respeito dele.

41. O homem que ainda ama a fama vazia, ou é ligado a algum objeto material, é naturalmente irritado com pessoas por conta de coisas transitórias, ou abriga rancor ou ódio contra elas, ou é um escravo de pensamentos vergonhosos. Tais coisas são de todo estranhas à alma que ama Deus.

42. Se tu não tens pensamento de nenhuma palavra ou ação vergonhosa em tua mente, não abrigas rancor contra alguém que te injuriou ou caluniou, e, enquanto oras, sempre manténs teu intelecto livre de matéria e forma, tu podes ter certeza que tu alcançaste a medida completa de despaixão e amor perfeito.

43. Não é uma luta pequena ser libertado da autoestima. Tal liberdade é a de ser alcançada pela prática interior das virtudes e por oração mais frequente; e o sinal que tu a alcançaste é que tu não mais abrigas rancor contra qualquer um que te injuria ou te injuriou.

44. Se tu queres ser uma pessoa justa, designa a cada aspecto de ti mesmo, a tua alma e teu corpo, o que está de acordo com ele. Ao aspecto inteligente da alma designa a leitura espiritual, a contemplação e a oração; ao aspecto incisivo, o amor espiritual, o oposto do ódio; ao aspecto desejante, a moderação e o autocontrole; à parte carnal, comida e roupa, porque estas apenas são necessárias (cf. I Tim. 6:8).

45. O intelecto funciona de acordo com a natureza quando ele mantém as paixões sob controle, contempla as essências interiores de seres criados, e se mantém com Deus.

46. Assim como a saúde e a doença são para o corpo de um ser vivo, e a luz e as trevas para o olho, da mesma forma a virtude e o vício são para a alma, e o conhecimento e a ignorância para o intelecto.

47. Os mandamentos, as doutrinas, a fé: estes são os três objetos da filosofia do cristão. Os mandamentos separam o intelecto das paixões; as doutrinas o conduzem ao conhecimento espiritual de seres criados; e a fé à contemplação da Santíssima Trindade.

48. Alguns daqueles que seguem o caminho espiritual apenas repelem pensamentos apaixonados; outros cortam as próprias paixões. Tais pensamentos são repelidos por salmodia, ou por oração, ou por levantar a mente de alguém para Deus, ou por ocupar a atenção de alguém de alguma forma similar. As paixões são cortadas por meio de distanciamento apropriado daquelas coisas pelas quais elas são incitadas.

49. As paixões são incitadas em nós por, por exemplo, mulheres, riqueza, fama e assim por diante. Nós podemos alcançar o distanciamento no que diz respeito a mulheres quando, depois de nos retirarmos do mundo, nós murchamos o corpo, como nós deveríamos, por meio do autocontrole. Nós podemos alcançar o distanciamento no que a riqueza concerne quando nós fazemos a mente de alguém ser frugal em todas as coisas. Nós podemos nos tornar indiferentes à fama por praticar as virtudes interiormente, de uma forma visível apenas para Deus. E nós podemos agir de uma forma similar a respeito de outras coisas. Uma pessoa que alcançou tal distanciamento como este nunca odiará a qualquer um.

50. Aquele que renunciou a coisas como o casamento, posses e outras buscas mundanas é exteriormente um monge, mas pode ainda não ser um monge interiormente. Apenas aquele que renunciou às imagens conceituais apaixonadas destas coisas fez um monge do eu interior, o intelecto. É fácil ser um monge no eu exterior se se quer o ser; mas não é preciso uma luta pequena para ser um monge no eu interior.

51. Quem nesta geração é completamente libertado de imagens conceituais apaixonadas, e a quem foi concedido oração ininterrupta, pura e espiritual? No entanto esta é a marca do monge interior.

52. Muitas paixões estão escondidas em nossas almas; elas podem ser trazidas à luz apenas quando os objetos que as incitam estão presentes.

53. Um homem pode desfrutar de despaixão parcial e não ser perturbado por paixões quando os objetos que as incitam estão ausentes. Mas uma vez que aqueles objetos estão presentes, as paixões rapidamente distraem seu intelecto.

54. Não imagines que tu desfrutas de despaixão perfeita quando o objeto que incita tua paixão não está presente. Se quando ele está presente tu permaneces imovido tanto pelo objeto quanto pelo pensamento subsequente dele, tu podes ter certeza que tu entraste no reino da despaixão. Mas mesmo assim não estejas confiante em excesso; porque a virtude quando habitual mata as paixões, mas quando ela é negligenciada elas voltam à vida.

55. Aquele que ama o Cristo é obrigado a O imitar o melhor de sua habilidade. O Cristo, por exemplo, estava sempre conferindo bênçãos sobre as pessoas; Ele foi longânimo quando elas foram ingratas e O blasfemaram; e quando elas O espancaram e O mataram, Ele o suportou, não imputando nenhum mal de todo a qualquer um. Estes são os três atos que manifestam amor para com o vizinho. Se ele é incapaz deles, a pessoa que diz que ele ama o Cristo ou alcançou o reino engana a si mesma. Porque nem todo aquele que diz a Mim: Senhor, Senhor entrará no reino do céu; mas aquele que faz a vontade de Meu Pai (Mat. 7:21); e de novo, Aquele que Me ama guardará Meus mandamentos (cf. João 14:15, 23).

56. O propósito inteiro dos mandamentos do Salvador é o de libertar o intelecto de dissipação e ódio, e o de o conduzir ao amor dEle e do vizinho. Deste amor nasce a luz do conhecimento santo ativo.

57. Quando Deus te concedeu um grau de conhecimento espiritual, não negligencies o amor e o autocontrole; porque é isto que, uma vez que eles purificaram o aspecto passível da alma, sempre mantêm aberto para ti o caminho para tal conhecimento.

58. A despaixão e a humildade conduzem ao conhecimento espiritual. Sem elas ninguém verá o Senhor.

59. Já que o conhecimento infla, mas o amor edifica (I Cor. 8:1), une o amor com o conhecimento e tu te libertarás da arrogância e serás um construtor espiritual, edificando tanto a ti mesmo quanto a todos que se aproximam de ti.

60. O amor edifica porque ele não inveja, ou sente nenhuma amargura para com aqueles que são invejosos, ou exibe ostensivamente o que provoca inveja; ele não considera que seu propósito ainda foi alcançado (cf. Fil. 3:13), e ele confessa sem hesitação sua ignorância do que ele não conhece. Daí que ele liberta o intelecto da arrogância e sempre o equipa para avançar no conhecimento.

61. É natural para o conhecimento espiritual produzir presunção e inveja, especialmente nos estágios iniciais. A presunção vem apenas do interior, mas a inveja vem tanto do interior quanto do exterior, do interior quando nós sentimos inveja daqueles que têm conhecimento, do exterior quando aqueles que amam o conhecimento sentem inveja de nós. O amor destrói todas as três destas falhas: a presunção, porque o amor não é inflado; a inveja do interior, porque o amor não é ciumento; e a inveja do exterior, porque o amor é longânimo e gentil (I Cor. 13:4). Uma pessoa com conhecimento espiritual deve, então, também adquirir amor, para que ela possa sempre manter seu intelecto em um estado saudável.

62. Aquele a quem foi concedida a Gratia do conhecimento espiritual e no entanto abriga ressentimento, rancor ou ódio por qualquer um, é como alguém que lacera seus olhos com espinhos e cardos. Daí que o conhecimento deve ser acompanhado de amor.

63. Não devotes todo teu tempo a teu corpo mas aplica a ele uma medida de asceticismo apropriada à sua força, e depois vira todo teu intelecto para o que está no interior. O asceticismo corporal tem apenas um uso limitado, mas a devoção verdadeira é útil em todas as coisas (I Tim. 4:8).

64. Aquele que sempre se concentra na vida interior se torna contido, longânimo, gentil e humilde. Ele também será capaz de contemplar, teologizar e orar. É o que São Paulo queria dizer quando ele disse: Caminhai no Espírito (Gál. 5:16).

65. Um ignorante do caminho espiritual não está em guarda contra imagens conceituais apaixonadas, mas se devota inteiramente à carne. Ele é ou um glutão, ou licencioso, ou cheio de ressentimento, raiva e rancor. Como resultado ele escurece seu intelecto, ou ele pratica asceticismo excessivo e assim confunde sua mente.

66. A Escritura não proíbe nada que Deus nos deu para nosso uso; mas ela condena a imoderação e o comportamento irrefletido. Por exemplo, ela não nos proíbe de comer, ou de procriar filhos, ou de possuir coisas materiais e de as administrar apropriadamente. Mas ela nos proíbe de ser glutões, de fornicar e assim por diante. Ela não nos proíbe de pensar sobre estas coisas, elas foram feitas para ser pensadas, mas ela nos proíbe de pensar nelas com paixão.

67. Algumas das coisas que nós fazemos por causa de Deus são feitas em obediência aos mandamentos; outras são feitas não em obediência aos mandamentos mas, por assim dizer, como uma oferenda voluntária. Por exemplo, nos é exigido pelos mandamentos amar a Deus e a nosso vizinho, amar nossos inimigos, não cometer adultério ou assassinato e assim por diante. E quando nós transgredimos estes mandamentos, nós somos condenados. Mas nós não somos ordenados a viver como virgens, a nos abster do casamento, a renunciar a posses, a nos retirar para a solidão e assim por diante. Estas são da natureza de dádivas, para que se por meio da fraqueza nós somos incapazes de cumprir alguns dos mandamentos, nós possamos por estas dádivas livres propiciar nosso bem-aventurado Mestre.

68. Aquele que honra o celibato e a virgindade deve manter seus lombos cingidos e sua lâmpada queimando (cf. Lucas 12:35). Ele mantém seus lombos cingidos por meio do autocontrole, e sua lâmpada queimando por meio da oração, da contemplação e do amor espiritual.

69. Alguns dos irmãos pensam que eles são excluídos das dádivas de graça do Espírito Santo. Porque eles negligenciam a prática dos mandamentos eles não sabem que aquele que tem uma fé não adulterada no Cristo tem no interior de si o total de todas as dádivas divinas. Já que por meio de nossa preguiça nós estamos longe de ter um amor ativo para com Ele, um amor que nos mostra os tesouros divinos no interior de nós, nós naturalmente pensamos que nós somos excluídos destas dádivas.

70. Se, como São Paulo diz, o Cristo habita em nossos corações por meio da fé (cf. Efes. 3:17), e todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento espiritual estão escondidos nEle (cf. Col. 2:3), então todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento espiritual estão escondidos em nossos corações. Eles são revelados ao coração em proporção à nossa purificação por meio dos mandamentos.

71. Este é o tesouro escondido no campo de teu coração (cf. Mat. 13:44), que tu ainda não encontraste por causa de tua preguiça. Se tu o tivesses encontrado, tu terias vendido tudo e comprado aquele campo. Mas agora tu abandonaste aquele campo e dás toda a tua atenção à terra próxima, onde não há nada a não ser espinhos e cardos.

72. É por esta razão que o Salvador diz, Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão Deus (Mat. 5:8) porque Ele está escondido nos corações daqueles que creem nEle. Eles O verão e as riquezas que estão nEle quando eles se purificaram por meio do amor e do autocontrole; e quanto maior sua pureza, mais eles verão.

73. E é por isso que Ele também diz, Vendei o que vós possuís e dai esmolas (Lucas 12:33), e vós achareis que todas as coisas são limpas para vós (Lucas 11:41). Isto se aplica a aqueles que não mais gastam seu tempo com coisas a ver com o corpo, mas se esforçam para limpar o intelecto (que o Senhor chama coração) de ódio e dissipação. Porque estes contaminam o intelecto e não lhe permitem ver o Cristo, que habita nele pela graça do santo batismo.

74. Na Escritura as virtudes são chamadas caminhos. A maior de todas as virtudes é o amor. É por isso que São Paulo disse, Agora eu vos mostrarei o melhor caminho de todos (I Cor. 12:31), um que nos persuade a escarnecer de coisas materiais e a valorizar nada transitório mais do que o que é eterno.

75. O amor de Deus é oposto ao desejo, porque ele persuade o intelecto a se controlar no que diz respeito a prazeres sensuais. O amor para com nosso vizinho é oposto à raiva, porque ele nos faz escarnecer de fama e riquezas. Estas são as duas moedas que nosso Salvador deu ao estalajadeiro (cf. Lucas 10:31), para que ele cuidasse de ti. Mas não estejas irrefletido e te associes a ladrões; do contrário tu serás espancado de novo e deixado não meramente inconsciente mas morto.

76. Limpa teu intelecto de raiva, rancor e pensamentos vergonhosos, e tu serás capaz de perceber a habitação interior do Cristo.

77. Quem te iluminou com a fé na santa, coessencial e adorável Trindade? Ou quem fez conhecido a ti a dispensação encarnada de uma da Santíssima Trindade? Quem te ensinou a respeito das essências interiores de seres incorpóreos, ou a respeito da origem e consumação do mundo visível, ou a respeito da ressurreição dentre os mortos e da vida eterna, ou a respeito da glória do reino do céu e do julgamento terrível? Não foi a graça do Cristo habitando em ti, que é o penhor do Espírito Santo? O que é maior do que esta graça? O que é mais nobre do que esta sabedoria e conhecimento? O que é mais alto do que estas promessas? Mas se nós somos preguiçosos e negligentes, e se nós não nos limpamos das paixões que nos contaminam, cegando nosso intelecto e assim nos impedindo de ver a natureza interior destas realidades mais claramente do que o sol, culpe-se a si mesmo e não negue a habitação interior da graça.

78. Deus, que te prometeu bênçãos eternas (cf. Tito 1:2) e te deu o penhor do Espírito em teus corações (cf. II Cor. 1:22), te ordenou a prestar atenção a como tu vives, para que o homem interior possa ser libertado das paixões e começar aqui e agora a desfrutar destas bênçãos.

79. Quando te foi concedido as formas mais altas da contemplação de realidades divinas, dá tua atenção máxima ao amor e ao autocontrole, para que tu possas manter o aspecto passível de tua alma sem ser perturbado e preservar a luz de tua alma em esplendor não diminuído.

80. Refreia a potência incisiva de tua alma com o amor, apaga seu desejo com o autocontrole, dá asas à sua inteligência com a oração, e a luz de teu intelecto nunca será escurecida.

81. Desgraça, injúria, calúnia, ou contra a fé de alguém ou contra a forma de vida de alguém, espancamentos, golpes e assim por diante, estas são as coisas que dissolvem o amor, se elas acontecem a eu mesmo ou a algum de teus parentes ou amigos. Aquele que perde seu amor por causa destas coisas ainda não entendeu o propósito dos mandamentos do Cristo.

82. Esforça-te o mais duro que tu podes para amar a todo homem. Se tu não podes ainda fazer isto, ao menos não odies a qualquer um. Mas mesmo isto está para lá de teu poder a menos que tu escarneças de coisas mundanas.

83. Alguém te vilipendiou? Não o odies; odia o vilipêndio e o demônio que o induziu a o proferir. Se tu odeias o vilipendiador, tu odiaste um homem e assim quebraste o mandamento. O que ele fez em palavra tu fazes em ação. Para guardar o mandamento, mostra as qualidades do amor e o ajuda de qualquer forma que tu possas, para que tu o possas libertar do mal.

84. O Cristo não quer que tu sintas o menor ódio, ressentimento, raiva ou rancor para com qualquer um de qualquer forma ou por conta de qualquer coisa transitória que seja. Isto é proclamado em todos os quatro Evangelhos.

85. Muitos de nós somos faladores, poucos são fazedores. Mas ninguém deveria distorcer a palavra de Deus por meio de sua própria negligência. Ele deve confessar sua fraqueza e não esconder a verdade de Deus. Do contrário ele será culpado não apenas de quebrar os mandamentos mas também de falsificar a palavra de Deus.

86. O amor e o autocontrole libertam a alma de paixões; a leitura espiritual e a contemplação libertam o intelecto de ignorância; e o estado de oração o traz para a presença do próprio Deus.

87. Quando os demônios veem que nós escarnecemos de coisas deste mundo para não odiar homens por conta de tais coisas, e assim nos afastar do amor, então eles incitam calúnias contra nós. Desta forma eles esperam que, incapazes de conter nosso ressentimento, nós seremos provocados a odiar aqueles que nos caluniam.

88. Nada dói a alma mais do que a calúnia, se ela é direcionada contra a fé de alguém ou contra a forma de vida de alguém. Ninguém pode ser indiferente a ela exceto aqueles que como Susana têm seus olhos firmemente fixos em Deus (cf. Sus. versículo 35). Porque apenas Deus tem o poder de resgatar de perigo, como Ele a resgatou, de convencer homens da verdade, como Ele o fez no caso dela, e de encorajar a alma com a esperança.

89. Na medida em que tu oras com toda tua alma pela pessoa que te calunia, Deus fará a verdade conhecida a aqueles que foram escandalizados pela calúnia.

90. Apenas Deus é bom por natureza (cf. Mat. 19:17), e apenas aquele que imita Deus é bom em vontade e propósito. Porque é a intenção de tal pessoa unir o ímpio Àquele que é bom por natureza, para que eles também possam se tornar bons. É por isso que, embora injuriado por eles, ele abençoa; perseguido, ele suporta; vilipendiado, ele suplica (cf. I Cor. 4:12-13); posto à morte, ele ora por eles. Ele faz tudo para não se desviar do propósito do amor, que é o próprio Deus.

91. Os mandamentos do Senhor nos ensinam a usar coisas neutras inteligentemente. Tal uso purifica o estado da alma. Um estado de pureza procria a discriminação; a discriminação procria a despaixão; e é da despaixão que o amor perfeito nasce.

92. Se quando alguma provação acontece tu não podes desconsiderar a falha de um amigo, se ela é real ou aparente, tu ainda não alcançaste a despaixão. Porque quando as paixões que jazem profundamente na alma são perturbadas, elas cegam a mente, a impedindo de perceber a luz da verdade e de discriminar entre o bem e o mal. Se tu estás em tal estado tu da mesma forma ainda não alcançaste amor perfeito, o amor que expulsa o medo do julgamento (cf. I João 4:18).

93. Um amigo fiel é para lá de preço (Ecles. 6:15), já que ele considera as infortúnios de seu amigo como suas próprias e sofre com ele, compartilhando suas provações até a morte.

94. Amigos são muitos, mas em tempos de prosperidade (cf. Prov. 19:4). Em tempos de adversidade tu terás dificuldade em encontrar nem mesmo um.

95. Se deve amar a todo homem da alma, mas se deve colocar a esperança de alguém apenas em Deus e O servir com toda a força de alguém. Porque desde que Ele nos proteja contra dano, todos nossos amigos nos tratam com respeito e todos nossos inimigos são impotentes para nos injuriar. Mas uma vez que Ele nos abandona, todos nossos amigos se viram para longe de nós enquanto todos nossos inimigos prevalecem contra nós.

96. Há quatro formas principais pelas quais Deus nos abandona. A primeira é a forma da dispensação divina, para que por meio de nosso aparente abandono outros que são abandonados possam ser salvos. Nosso Senhor é um exemplo disto (cf. Mat. 27:46). A segunda é a forma da provação e do teste, como no caso de e de José; porque isto fez de Jó um pilar de coragem e de José um pilar de autocontrole (cf. Gên. 39:8). A terceira é a forma da correção paterna, como no caso de São Paulo, para que em sendo humilde ele possa preservar a superabundância de graça (cf. II Cor. 12:7). A quarta é a forma da rejeição, como no caso dos Judeus, para que em sendo castigados eles possam ser trazidos ao arrependimento. Estas são todas formas de salvamento, cheias de bênção e sabedoria divinas.

97. Apenas aqueles que guardam escrupulosamente os mandamentos, e são verdadeiros iniciados em julgamentos divinos, não abandonam seus amigos quando Deus permite que estes amigos sejam postos à prova. Aqueles que escarnecem dos mandamentos e que são ignorantes a respeito de julgamentos divinos se regozijam com seu amigo em tempos de sua prosperidade; mas quando em tempos de provação ele sofre dificuldades, eles o abandonam e às vezes até ficam do lado daqueles que o atacam.

98. Os amigos do Cristo amam todos de verdade mas não são eles mesmos amados por todos; os amigos do mundo nem amam todos nem são amados por todos. Os amigos do Cristo perseveram no amor até o fim; os amigos do mundo perseveram apenas até eles se desentenderem um com o outro sobre alguma coisa mundana.

99. Um amigo fiel é uma forte defesa (Ecles. 6:14); porque quando as coisas estão indo bem contigo, ele é um bom conselheiro e um colaborador simpático, enquanto que quando as coisas estão indo mal, ele é o mais verdadeiro dos ajudantes e um mais compassivo apoiador.

100. Muitos disseram muito a respeito do amor, mas tu acharás o amor ele mesmo apenas se tu o buscas entre os discípulos do Cristo. Porque apenas eles têm o Amor verdadeiro como professor do amor. Embora eu tenha o dom de profecia, diz São Paulo, e conheça todos os mistérios e todo o conhecimento... e não tenha amor, isto não me serve de nada (I Cor. 13:2-3). Aquele que possui amor possui o próprio Deus, porque Deus é amor (I João 4:8). A Ele seja a glória por todas as eras. Amém.