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id da página: 4107 Máximo o Confessor – Centúria sobre a Caridade 2 Maximo

Maximo Caridade 2

Máximo o Confessor — Centúrias sobre a Caridade 2


Tradução em grande parte feita a partir da versão inglesa da Philokalia, mas eventualmente utilizando a versão francesa.

1. Aquele que verdadeiramente ama Deus ora inteiramente sem distração, e aquele que ora inteiramente sem distração ama Deus de verdade. Mas aquele cujo intelecto está fixo em qualquer coisa mundana não ora sem distração, e consequentemente ele não ama Deus.

2. O intelecto que flerta com alguma coisa sensível claramente está ligado a ela por alguma paixão, tal como o desejo, a irritação, a raiva ou o rancor; e a menos que ele se torne desapegado daquela coisa ele não será capaz de se libertar da paixão que o afeta.

3. Quando as paixões dominam o intelecto, elas o separam de Deus, ligando-o a coisas materiais e o preocupando com elas. Mas quando o amor de Deus domina o intelecto, ele o liberta de seus laços, o persuadindo a se erguer acima não apenas de coisas sensíveis mas até desta vida transitória.

4. O efeito de observar os mandamentos é o de libertar de paixão nossas imagens conceituais de coisas. O efeito da leitura espiritual e da contemplação é o de desapegar o intelecto de forma e matéria. É isto que dá origem à oração sem distração.

5. A menos que várias contemplações espirituais sucessivas também ocupem o intelecto, a prática de virtudes por si mesma não pode o libertar tão inteiramente de paixões que ele seja capaz de orar sem distração. A prática das virtudes liberta o intelecto apenas de dissipação e ódio; a contemplação espiritual o liberta também de esquecimento e ignorância. Desta forma o intelecto pode orar como ele deveria.

6. Dois estados de oração pura são exaltados acima de todos os outros. Um é a ser encontrado naqueles que não avançaram para lá da prática das virtudes, o outro naqueles que levam a vida contemplativa. O primeiro é engendrado na alma pelo medo de Deus e uma firme esperança nEle, o segundo por um anseio intenso por Deus e por total purificação. O sinal do primeiro é que o intelecto, abandonando todas as imagens conceituais do mundo, se concentra e ora sem distração ou perturbação como se o próprio Deus estivesse presente, como de fato Ele está. O sinal do segundo é que no próprio início da oração o intelecto está tão arrebatado pela luz divina e infinita que ele está ciente nem de si mesmo nem de qualquer outra coisa criada, mas apenas Daquele que por meio do amor ativou tal brilho nele. É então que, em sendo feito ciente das qualidades de Deus, ele recebe reflexos claros e distintos dEle.

7. O que quer que um homem ama ele inevitavelmente se apega a, e para não o perder ele rejeita tudo o que o mantém longe disto. Assim, aquele que ama Deus cultiva a oração pura, expulsando toda paixão que o mantém longe dela.

8. Aquele que expulsa o amor-próprio, a mãe das paixões, se livrará com a ajuda de Deus facilmente do resto, tal como a raiva, a irritação, o rancor e assim por diante. Mas aquele que é dominado pelo amor-próprio é superado pelas outras paixões, até contra sua vontade. O amor-próprio é a paixão de apego ao corpo.

9. Os homens amam uns aos outros, de forma louvável ou repreensível, pelas cinco razões seguintes; ou por causa de Deus, como o homem virtuoso ama a todos e como o homem ainda não virtuoso ama o virtuoso; ou por natureza, como os pais amam seus filhos e os filhos seus pais; ou por causa da autoestima, como aquele que é louvado ama o homem que o louva; ou por causa da avareza, como no caso de um que ama um homem rico pelo que ele pode tirar dele; ou por causa da autoindulgência, como com o homem que serve sua barriga e seus genitais. O primeiro destes é louvável, o segundo é de um tipo intermediário, os restantes são dominados por paixão.

10. Se há alguns homens que tu odeias e alguns que tu nem amas nem odeias, e outros que tu amas fortemente e outros ainda que tu amas mas moderadamente, reconhece a partir desta desigualdade que tu estás longe do amor perfeito. Porque o amor perfeito pressupõe que tu ames todos os homens igualmente.

11. Foge do mal e faze o bem (Sal. 34:14), isto é, combate o inimigo a fim de diminuir as paixões, e depois fica vigilante para que elas não aumentem mais uma vez. De novo, combate para adquirir as virtudes e depois fica vigilante a fim de as manter. Este é o significado de cultivar e guardar (cf. Gên. 2:15).

12. Aqueles a quem Deus permite de nos testar ou inflamam o aspecto desejante da alma, ou agitam sua potência incisiva, ou escurecem sua inteligência, ou envolvem seu corpo em dor, ou nos privam de necessidades corporais.

13. Os demônios ou nos tentam eles mesmos ou armam contra nós aqueles que não têm medo do Senhor. Eles nos tentam eles mesmos quando nós nos retiramos da sociedade humana, como eles tentaram nosso Senhor no deserto. Eles nos tentam por meio de outras pessoas quando nós gastamos nosso tempo na companhia de outros, como eles tentaram nosso Senhor por meio dos Fariseus. Mas qualquer que seja a linha de ataque que eles escolham, vamos os repelir em mantendo nosso olhar fixo no exemplo do Senhor.

14. Quando o intelecto comeca a avançar no amor por Deus, o demônio da blasfêmia começa a o tentar, sugerindo pensamentos tais que nenhum homem mas apenas o diabo, seu pai, poderia os inventar. Ele faz isto por inveja, para que o homem de Deus, em seu desespero em pensar tais pensamentos, não ouse mais se elevar para Deus em sua oração costumeira. Mas o demônio não favorece seus próprios fins por este meio. Pelo contrário, ele nos torna mais firmes. Porque por meio de seus ataques e nossa retaliação nós crescemos mais experientes e genuínos em nosso amor por Deus. Que sua espada entre em seu próprio coração e que seus arcos sejam quebrados (cf. Sal. 37:15).

15. Quando o intelecto vira sua atenção para o mundo visível, ele percebe coisas por meio do meio dos sentidos de uma forma que está de acordo com a natureza. E o intelecto não é mau, nem sua capacidade natural de formar imagens conceituais de coisas, nem as próprias coisas, nem os sentidos, porque todos são obra de Deus. O que, então, é mau? Claramente é a paixão que entra nas imagens conceituais formadas de acordo com a natureza pelo intelecto; e isto não precisa acontecer se o intelecto fica em guarda.

16. A paixão é um impulso da alma contrário à natureza, como no caso de amor sem mente ou ódio sem mente para com alguém ou para com alguma coisa sensível. No caso do amor, pode ser para com comida desnecessária, ou para com uma mulher, ou para com dinheiro, ou para com glória transitória, ou para com outros objetos sensíveis ou por conta deles. No caso do ódio, pode ser para com qualquer das coisas mencionadas, ou para com alguém por conta destas coisas.

17. De novo, o vício é o uso errado de nossas imagens conceituais de coisas, o que nos leva a usar mal as próprias coisas. Em relação a mulheres, por exemplo, o intercurso sexual, usado corretamente, tem como seu propósito a procriação de filhos. Aquele, portanto, que busca nele apenas prazer sensual o usa erradamente, porque ele considera como bom o que não é bom. Quando tal homem tem intercurso com uma mulher, ele usa-a mal. E o mesmo é verdadeiro a respeito de outras coisas e de nossas imagens conceituais delas.

18. Quando os demônios expulsam o autocontrole de teu intelecto e te assediam com pensamentos de impudicícia, te vira para o Senhor com lágrimas e diz, Agora eles me expulsaram e me cercaram (Sal. 17:11. LXX); Tu és minha alegria suprema: me livra daqueles que me cercam (Sal. 32:7. LXX). Então tu estarás seguro.

19. O demônio de impudicícia é poderoso e ataca violentamente aqueles que lutam contra a paixão, particularmente se eles são relaxados a respeito de assuntos de dieta e frequentemente se encontram com mulheres. Com a lubricidade de prazer sensual ele se infiltra imperceptivelmente no intelecto e depois persegue o hesicasta por meio da memória, pondo seu corpo em fogo e apresentando várias formas a seu intelecto. Desta forma ele evoca seu assentimento ao pecado. Se tu não queres que estas formas se demorem em ti, te viras de novo para o jejum, o trabalho, as vigílias e a quietude bem-aventurada com oração intensa.

20. Aqueles que estão sempre tentando se apoderar de nossa alma o fazem por meio de pensamentos apaixonados, para que eles possam a conduzir a pecar ou na mente ou em ação. Consequentemente, quando eles encontram o intelecto não receptivo, eles serão desgraçados e postos à vergonha; e quando eles encontram o intelecto ocupado com contemplação espiritual, eles serão virados para trás e subitamente envergonhados (Sal. 6:10).

21. Aquele que unge seu intelecto para o concurso espiritual e expulsa todos os pensamentos apaixonados dele tem a qualidade de um diácono. Aquele que ilumina seu intelecto com o conhecimento de seres criados e destrói inteiramente o falso conhecimento tem a qualidade de um sacerdote. E aquele que aperfeiçoa seu intelecto com o santo mirra do conhecimento e adoração da Sanctissima Trinitas tem a qualidade de um bispo.

22. Os demônios são enfraquecidos quando as paixões em nós diminuem por meio de nosso guardar os mandamentos; e eles são derrotados totalmente quando eles são esmagados pela despaixão, porque então eles não mais encontram nada por meio do qual eles podem entrar na alma e combater contra ela. É o que se quer dizer com eles serão enfraquecidos e derrotados diante de Tua face (Sal. 9:3).

23. Alguns homens se abstêm das paixões por causa do medo humano, outros por causa da autoestima, e outros por meio do autocontrole. Alguns, contudo, são libertados das paixões pela providência divina.

24. Todos os discursos de nosso Senhor contêm estes quatro elementos: mandamentos, doutrinas, ameaças e promessas. Com a ajuda destes nós aceitamos pacientemente todo tipo de dureza, tal como o jejum, as vigílias, o dormir no chão, o trabalho e a dureza em atos de serviço, os insultos, a desonra, a tortura, a morte e assim por diante. Ajudado pelas palavras de Teus lábios, diz o salmista, eu me mantive em caminhos difíceis (Sal. 17:4. LXX).

25. A recompensa do autocontrole é a despaixão, e a recompensa da é o conhecimento espiritual. A despaixão engendra a discriminação, e o conhecimento espiritual engendra o amor para com Deus.

26. Quando o intelecto pratica as virtudes corretamente, ele avança em entendimento moral. Quando ele pratica a contemplação, ele avança em conhecimento espiritual. O primeiro conduz o concursante espiritual a discriminar entre a virtude e o vício; o segundo conduz o participante às qualidades interiores de coisas incorpóreas e corpóreas. Finalmente, ao intelecto é concedida a Gratia da teologia quando, levado em asas de amor para lá destes dois estágios anteriores, ele é levado para Deus e com a ajuda do Espírito Santo discerne tanto quanto isto é possível para o intelecto humano as qualidades de Deus.

27. Se tu estás para entrar no reino da teologia, não busques discernir a natureza mais íntima de Deus, porque nem o intelecto humano nem aquele de qualquer outro ser sob Deus pode experimentar isto; mas tenta discernir, tanto quanto possível, as qualidades que pertencem à Sua natureza, qualidades de eternidade, infinidade, indeterminação, bondade, sabedoria, e o poder de criar, preservar e julgar criaturas, e assim por diante. Porque aquele que descobre estas qualidades, em qualquer pequena medida que seja, é um grande teólogo.

28. Aquele que combina a prática das virtudes com o conhecimento espiritual é um homem de poder. Porque com o primeiro ele murcha seu desejo e domestica sua incisividade, e com o segundo ele dá asas a seu intelecto e sai de si mesmo para Deus.

29. Quando nosso Senhor diz, Eu e Meu Pai somos um (João 10:30), Ele indica sua identidade de essência. De novo, quando Ele diz, Eu estou no Pai, e o Pai em Mim (João 14:11), Ele mostra que as Pessoas não podem ser divididas. Os triteístas, portanto, que dividem o Filho do Pai, se encontram em um dilema. Ou eles dizem que o Filho é coeterno com o Pai, mas no entanto O dividem do Pai, e assim eles são compelidos a dizer que Ele não é gerado a partir do Pai; assim eles caíram no erro de afirmar que há três Deuses e três primeiros princípios. Ou então eles dizem que o Filho é gerado a partir do Pai mas no entanto O dividem do Pai, e assim eles são compelidos a dizer que Ele não é coeterno com o Pai; assim eles tornam o Senhor do tempo sujeito ao tempo. Porque, como São Gregório de Nazianzo diz, é necessário tanto manter o um Deus quanto confessar as três Pessoas, cada uma em Sua própria individualidade. Segundo São Gregório, a Divindade é dividida mas sem divisão e é unida mas com distinções. Por causa disto tanto a divisão quanto a união são paradoxais. Porque que paradoxo haveria se o Filho fosse unido ao Pai e dividido dEle apenas da mesma forma que um ser humano é unido e dividido de um outro, e nada mais?

30. Para aquele que é perfeito no amor e alcançou o cume da despaixão não há diferença entre seu próprio ou de um outro, ou entre cristãos e descrentes, ou entre escravo e livre, ou até entre macho e fêmea. Mas porque ele se ergueu acima da tirania das paixões e fixou sua atenção na única natureza do homem, ele olha para todos da mesma forma e mostra a mesma disposição para com todos. Porque nele não há nem Grego nem Judeu, macho nem fêmea, ligado nem livre, mas o Cristo que é tudo, e em todos (Col. 3:11; cf. Gál. 3:28).

31. As paixões que jazem escondidas na alma provêm os demônios com os meios de incitar pensamentos apaixonados em nós. Depois, combatendo o intelecto por meio destes pensamentos, eles o forçam a dar seu assentimento ao pecado. Quando ele foi superado, eles o conduzem a pecar na mente; e quando isto foi feito eles o induzem, cativo como ele o está, a cometer o pecado em ação. Tendo assim desolado a alma por meio destes pensamentos, os demônios depois se retiram, levando os pensamentos com eles, e apenas o espectro ou ídolo do pecado permanece no intelecto. Referindo-se a isto nosso Senhor diz, Quando vós virdes o ídolo abominável da desolação em pé no lugar santo (que aquele que lê entenda). . . (Mat. 24:15). Porque o intelecto do homem é um lugar santo e um templo de Deus no qual os demônios, tendo desolado a alma por meio de pensamentos apaixonados, estabelecem o ídolo do pecado. Que estas coisas já aconteceram na história ninguém, eu penso, que leu Flávio Josefo duvidará; embora alguns digam que elas também acontecerão no tempo do Anticristo.

32. Há três coisas que nos impelem para o que é santo: instintos naturais, potências angélicas e probidade de intenção. Instintos naturais nos impelem quando, por exemplo, nós fazemos a outros o que nós desejaríamos que eles nos fizessem (cf. Lucas 6:31), ou quando nós vemos alguém sofrendo privação ou em necessidade e naturalmente sentimos compaixão. Potências angélicas nos impelem quando, em sendo nós mesmos impelidos para algo que vale a pena, nós achamos que nós somos ajudados e guiados providencialmente. Nós somos impelidos por probidade de intenção quando, discriminando entre o bem e o mal, nós escolhemos o bem.

33. Há também três coisas que nos impelem para o mal: paixões, demônios e pecaminosidade de intenção. Paixões nos impelem quando, por exemplo, nós desejamos algo para lá do que é razoável, tal como comida que é desnecessária ou fora de tempo, ou uma mulher que não é nossa esposa ou para um propósito outro do que a procriação, ou então quando nós somos zangados ou irritados excessivamente por, por exemplo, alguém que nos desonrou ou injuriou. Demônios nos impelem quando, por exemplo, eles nos pegam desprevenidos e de súbito lançam um ataque violento sobre nós, agitando as paixões já mencionadas e outras de uma natureza similar. Nós somos impelidos por pecaminosidade de intenção quando, conhecendo o bem, nós escolhemos o mal no lugar dele.

34. As recompensas para a dureza da virtude são a despaixão e o conhecimento espiritual. Porque estas são mediadoras do reino do céu, assim como paixões e ignorância são mediadoras do castigo eterno. É por causa disto que aquele que busca estas recompensas por causa da glória humana e não por sua bondade intrínseca é repreendido pelas palavras da Escritura, Vós pedis, e não recebeis, porque vós pedis mal (Tg. 4:3).

35. Muitas atividades humanas, boas em si mesmas, não são boas por causa do motivo pelo qual elas são feitas. Por exemplo, o jejum e as vigílias, a oração e a salmodia, os atos de caridade e hospitalidade são por natureza bons, mas quando executados por causa da autoestima eles não são bons.

36. Em tudo o que nós fazemos Deus busca nosso propósito para ver se nós o fazemos por Ele ou para algum outro motivo.

37. Quando tu ouves as palavras da Escritura, Tu renderás a todo homem de acordo com sua obra (Sal. 62:12. LXX), não penses que Deus concede bênçãos quando algo é feito para o propósito errado, mesmo que pareça ser bom. Bem claramente Ele concede bênçãos apenas quando algo é feito para o propósito certo. Porque o julgamento de Deus olha não para as ações mas para o propósito por trás delas.

38. A malícia do demônio do orgulho toma duas formas. Ou ele persuade o monge a atribuir suas realizações a si mesmo e não a Deus, o Doador de toda bondade e ajudante em toda realização; ou, se isto falha, ele sugere que ele deveria menosprezar aqueles de seus irmãos que são ainda menos perfeitos do que ele mesmo. Influenciado desta forma, ele não percebe que o demônio está o persuadindo a negar a ajuda de Deus. Porque se ele menospreza seus irmãos por sua falta de realização, ele claramente infere que ele realizou algo por meio de suas próprias potências. Mas isto é impossível, já que, como nosso Senhor disse, Sem Mim vós podeis fazer nada (João 15:5). Porque mesmo quando impelidos para o que é bom, nossa fraqueza não pode trazer nada à frutificação sem o Doador de toda bondade.

39. A pessoa que veio a conhecer a fraqueza da natureza humana ganhou experiência da potência divina. Tal homem, tendo realizado algumas coisas e ávido de realizar outras por meio desta potência divina, nunca menospreza a qualquer um. Porque ele sabe que assim como Deus o ajudou e o libertou de muitas paixões e dificuldades, da mesma forma, quando Deus quer, Ele é capaz de ajudar todos os homens, especialmente aqueles que seguem o caminho espiritual por Sua causa. E se em Sua providência Ele não liberta todos os homens ao mesmo tempo de suas paixões, ainda assim como um médico bom e amoroso Ele cura com tratamento individual cada um daqueles que estão tentando fazer progresso.

40. Nós nos tornamos orgulhosos quando as paixões cessam de ser ativas em nós, e isto se elas são inativas porque suas causas foram erradicadas ou porque os demônios se retiraram deliberadamente a fim de nos enganar.

41. Quase todo pecado é cometido por causa de prazer sensual; e o prazer sensual é superado por dureza e angústia que surgem ou voluntariamente do arrependimento, ou então involuntariamente como resultado de alguma salutífera e providencial reversão. Porque se nós nos julgássemos, nós não seríamos julgados; mas quando nós somos julgados, nós somos castigados pelo Senhor, para que nós não sejamos condenados com o mundo (I Cor. 11:31-32).

42. Quando uma provação vem sobre ti inesperadamente, não culpes a pessoa por meio da qual ela veio mas tenta descobrir a razão por que ela veio, e depois tu acharás uma forma de lidar com ela. Porque ou por meio desta pessoa ou por meio de uma outra tu terias em qualquer caso que beber o absinto de julgamentos de Deus.

43. Enquanto tu tiveres maus hábitos não rejeites a dureza, para que por meio dela tu possas ser humilhado e expelir teu orgulho.

44. Às vezes os homens são testados por prazer, às vezes por angústia ou por sofrimento físico. Por meio de Suas prescrições o Médico de almas administra o remédio de acordo com a causa das paixões que jazem escondidas na alma.

45. Provações são enviadas a alguns para tirar pecados passados, a outros para erradicar pecados agora sendo cometidos, e a ainda outros para prevenir pecados que podem ser cometidos no futuro. Estas são distintas das provações que surgem a fim de testar homens da forma que foi testado.

46. O homem sensível, tomando em consideração o efeito de remédio das prescrições divinas, suporta de bom grado os sofrimentos que elas trazem sobre ele, já que ele está ciente que elas não têm nenhuma outra causa senão seu próprio pecado. Mas quando o tolo, ignorante da sabedoria suprema da providência de Deus, peca e é corrigido, ele considera ou Deus ou homens como responsáveis pelas durezas que ele sofre.

47. Certas coisas param o movimento das paixões e não lhes permitem crescer; outras as subjugam e as fazem diminuir. Por exemplo, no que diz respeito ao desejo, o jejum, o trabalho e as vigílias não lhe permitem crescer, enquanto que a retirada, a contemplação, a oração e o anseio intenso por Deus o subjugam e o fazem desaparecer. O mesmo é verdadeiro a respeito da raiva. A paciência, a liberdade de rancor, a gentileza, por exemplo, todas a detêm e a previnem de crescer, enquanto que o amor, os atos de caridade, a bondade e a compaixão a fazem diminuir.

48. Quando o intelecto de um homem está constantemente com Deus, seu desejo cresce para lá de toda medida em um anseio intenso por Deus e sua incisividade é completamente transformada em amor divino. Porque por participação contínua no brilho divino seu intelecto se torna totalmente cheio de luz; e quando ele reintegrar seu aspecto passível, ele redireciona este aspecto para Deus, como nós dissemos, o enchendo com um anseio incompreensível e intenso por Ele e com amor incessante, assim o tirando inteiramente de coisas mundanas para o divino.

49. Se um homem não é invejoso ou zangado, e não guarda rancor contra alguém que o ofendeu, isto não significa necessariamente que ele o ama. Porque, enquanto ainda lhe falta amor, ele pode ser capaz de não retribuir o mal com o mal, de acordo com o mandamento (cf. Rom. 12:17), e no entanto de forma nenhuma ser capaz de render o bem pelo mal sem se forçar. Estar disposto espontaneamente a fazer o bem a aqueles que tu odeias (Mat. 5:44) pertence apenas ao amor espiritual perfeito.

50. Se um homem não ama alguém, isso não significa necessariamente que ele o odeia; e vice-versa, se ele não o odeia, isso não significa necessariamente que ele o ama, já que ele pode ser neutro para com ele, isto é, nem o amar nem o odiar. Porque a disposição de amar é criada apenas nas cinco formas alistadas no nono texto desta Centúria, uma louvável, uma de um tipo intermediário, e três repreensíveis.

51. Quando tu achas teu intelecto ocupado prazerosamente com coisas materiais e se tornando afeiçoado a suas imagens conceituais delas, tu podes ter certeza que tu amas estas coisas mais do que Deus. Porque onde teu tesouro está, lá teu coração estará também (Mat. 6:21).

52. O intelecto unido a Deus por longos períodos por meio de oração e amor se torna sábio, bom, poderoso, compassivo, misericordioso e longânimo; em resumo, ele inclui no interior de si quase todas as qualidades divinas. Mas quando o intelecto se retira de Deus e se liga a coisas materiais, ou ele se torna autoindulgente como algum animal doméstico, ou como uma fera ele combate com homens por causa destas coisas.

53. A Escritura chama coisas materiais o mundo; e homens mundanos são aqueles que ocupam seu intelecto com estas coisas. É a tais homens que a Escritura repreende quando ela diz: Não ameis o mundo ou as coisas que estão no mundo. . . O desejo da carne, e o desejo dos olhos, e o orgulho nas posses de alguém, não são de Deus mas do mundo (cf. I João 2:15-16).

54. Um monge é um homem que libertou seu intelecto de apego a coisas materiais e por meio de autocontrole, amor, salmodia e oração se apega a Deus.

55. O vaqueiro significa o homem que pratica as virtudes, porque as realizações morais podem ser representadas por gado. É por isso que Jacó disse, Vossos servos são vaqueiros (Gên. 46:34). O pastor significa o gnóstico, porque as ovelhas representam os pensamentos pastoreados pelo intelecto nas montanhas de contemplação. É por isso que todo pastor é uma abominação para os Egípcios (Gên. 46:34), isto é, para as potências demoníacas.

56. Quando o corpo é incitado pelos sentidos a se entregar a seus próprios desejos e prazeres, o intelecto corrompido sucumbe de bom grado e consente a suas fantasias e impulsos apaixonados. Mas o intelecto regenerado exerce autocontrole e se abstém deles. Além disso, como um filósofo verdadeiro ele estuda como retificar tais impulsos.

57. Há virtudes do corpo e virtudes da alma. Aquelas do corpo incluem o jejum, as vigílias, o dormir no chão, o servir às necessidades de pessoas, o trabalhar com as próprias mãos para não ser um fardo ou a fim de dar a outros (cf. I Tess. 2:9, Efes. 4:28). Aquelas da alma incluem o amor, a longanimidade, a gentileza, o autocontrole e a oração (cf. Gál. 5:22). Se como resultado de alguma coerção ou condição corporal, tal como a doença ou o que se assemelha, nós achamos que nós não podemos praticar as virtudes corporais mencionadas acima, nós somos perdoados pelo Senhor porque Ele conhece as razões. Mas se nós falhamos em praticar as virtudes da alma, nós não teremos uma só desculpa, porque é sempre no interior de nosso poder praticá-las.

58. O amor para com Deus conduz aquele que compartilha dele a ser indiferente a todo prazer transitório e a todo trabalho e angústia. Que todos os santos, que sofreram com alegria tanto por causa do Cristo, te convençam disto.

59. Guarda-te daquela mãe dos vícios, o amor-próprio, que é o amor sem mente para com o corpo. Porque ele dá à luz com justificação especiosa aos três primeiros e mais gerais dos pensamentos apaixonados. Eu me refiro a aqueles de gula, avareza e autoestima, que tomam como seu pretexto alguma assim chamada necessidade do corpo. Todos os demais vícios são gerados por estes três. Tu deves, portanto, estar em guarda, como nós já dissemos, e combater contra o amor-próprio com grande vigilância. Porque quando este vício é erradicado, todos os outros são erradicados também.

60. A paixão do amor-próprio sugere ao monge que ele deveria ter pena de seu corpo e em nome de seu cuidado e governo apropriados deveria tomar comida mais frequentemente do que é apropriado; porque desta forma o amor-próprio o conduzirá passo a passo a cair no poço da autoindulgência. Por outro lado, o amor-próprio incita aqueles que não são monges a cumprir os desejos do corpo de uma vez.

61. É dito que o estado mais alto de oração é alcançado quando o intelecto vai para lá da carne e do Mundo, e enquanto ora está inteiramente livre de matéria e forma. Aquele que mantém este estado de fato alcançou a oração incessante.

62. Quando o corpo morre, ele é de todo separado das coisas deste mundo. Similarmente, quando o intelecto morre enquanto naquele estado supremo de oração, ele é separado de todas as imagens conceituais deste mundo. Se ele não morre tal morte, ele não pode estar com Deus e viver com Ele.

63. Que ninguém te engane, monge, com a noção que tu podes ser salvo enquanto um escravo de prazer sensual e autoestima.

64. Quando o corpo peca por meio de coisas materiais, ele tem as virtudes corporais para o ensinar o autocontrole. Similarmente, quando o intelecto peca por meio de imagens conceituais apaixonadas, ele tem as virtudes da alma para o instruir, para que em vendo coisas de uma forma pura e sem paixão, ele também possa aprender o autocontrole.

65. Assim como a noite segue o dia e o inverno o verão, da mesma forma a angústia e a dor seguem a autoestima e o prazer sensual, ou nesta vida ou depois da morte.

66. Nenhum pecador pode escapar do julgamento futuro sem experimentar nesta vida ou durezas voluntárias ou aflições que ele não escolheu.

67. É dito que há cinco razões por que Deus nos permite ser atacados por demônios. A primeira é para que, em atacando e contra-atacando, nós deveríamos aprender a discriminar entre a virtude e o vício. A segunda é para que, tendo adquirido a virtude por meio de conflito e trabalho, nós a deveríamos guardar segura e imutável. A terceira é para que, quando fazendo progresso na virtude, nós não deveríamos nos tornar altivos mas aprender a humildade. A quarta é para que, tendo ganho alguma experiência do mal, nós o deveríamos odiar com ódio perfeito (cf. Sal. 139:22). A quinta e mais importante é para que, tendo alcançado a despaixão, nós não deveríamos esquecer nem nossa própria fraqueza nem o poder Daquele que nos ajudou.

68. Assim como o intelecto de um homem faminto imagina pão e o de um homem sedento água, da mesma forma o intelecto de um glutão imagina uma profusão de comidas, o de um sensualista as formas de mulheres, o de um homem vão honra mundana, o de um homem avarento ganho financeiro, o de um homem rancoroso vingança sobre quem quer que o tenha ofendido, o de um homem invejoso como fazer dano ao objeto de sua inveja, e assim por diante com todas as outras paixões. Porque um intelecto agitado por paixões é assediado por imagens conceituais apaixonadas se o corpo está acordado ou dormindo.

69. Quando o desejo cresce forte, o intelecto em sono imagina coisas que dão prazer sensual; e quando a potência incisiva cresce forte, ele imagina coisas que causam medo. Porque os demônios impuros, achando um aliado em nossa negligência, fortalecem e excitam as paixões. Mas anjos santos, em nos induzindo a executar obras de virtude, as tornam mais fracas.

70. Quando o aspecto desejante da alma é excitado frequentemente, ele implanta na alma um hábito de autoindulgência que é difícil de quebrar. Quando a potência incisiva da alma é estimulada constantemente, ela se torna no fim covarde e sem virilidade. A primeira destas falhas é curada por longo exercício em jejum, vigílias e oração; a segunda por bondade, compaixão, amor e misericórdia.

71. Os demônios combatem contra nós ou por meio de próprias coisas ou por meio de nossas imagens conceituais apaixonadas destas coisas. Eles combatem por meio de coisas contra aqueles que estão ocupados com coisas e por meio de imagens conceituais contra aqueles que não estão apegados a coisas.

72. Assim como é mais fácil pecar na mente do que em ação, da mesma forma a guerra por meio de nossas imagens conceituais apaixonadas de coisas é mais dura do que a guerra por meio das próprias coisas.

73. Coisas estão fora do intelecto, mas as imagens conceituais destas coisas são formadas no interior dele. É consequentemente no poder do intelecto de fazer bom ou mau uso destas imagens conceituais. Seu uso errado é seguido pelo mau uso das próprias coisas.

74. O intelecto recebe imagens conceituais apaixonadas de três formas: por meio dos sentidos, por meio da condição do corpo e por meio da memória. Ele as recebe por meio dos sentidos quando os próprios sentidos recebem impressões de coisas em relação às quais nós adquirimos paixão, e quando estas coisas agitam pensamentos apaixonados no intelecto; por meio da condição do corpo quando, como resultado ou de uma forma de vida indisciplinada, ou da atividade de demônios, ou de alguma doença, o equilíbrio de elementos no corpo é perturbado e de novo o intelecto é agitado a pensamentos apaixonados ou a pensamentos contrários à providência; por meio da memória quando a memória recorda as imagens conceituais de coisas em relação às quais nós uma vez fomos feitos apaixonados, e assim agita pensamentos apaixonados de uma forma similar.

75. Algumas das coisas dadas a nós por Deus para nosso uso estão na alma, outras estão no corpo e outras se relacionam ao corpo. Na alma estão suas potências; no corpo estão os órgãos dos sentidos e outros membros; se relacionando ao corpo estão a comida, o dinheiro, as posses e assim por diante. Nosso bom ou mau uso destas coisas dadas a nós por Deus, ou do que é contingente sobre elas, revela se nós somos virtuosos ou maus.

76. Das coisas contingentes sobre aquelas dadas a nós por Deus, algumas estão na alma, algumas estão no corpo, e algumas se relacionam ao corpo. Aquelas na alma são o conhecimento espiritual e a ignorância, o esquecimento e a memória, o amor e o ódio, o medo e a coragem, a angústia e a alegria, e assim por diante. Aquelas no corpo são o prazer e a dor, a sensação e a dormência, a saúde e a doença, a vida e a morte, e assim por diante. Aquelas se relacionando ao corpo são ter filhos e não ter filhos, a riqueza e a pobreza, a fama e a obscuridade, e assim por diante. Algumas destas são consideradas como boas e outras como más. Nenhuma delas é má em si mesma. De acordo com como elas são usadas elas podem ser chamadas corretamente de boas ou más.

77. Tanto o conhecimento espiritual quanto a saúde são bons por natureza, no entanto seus contrários foram de mais benefício para muitas pessoas. Porque tal conhecimento pode não servir a nenhum bom propósito no que diz respeito aos ímpios, mesmo que, como nós dissemos, ele seja bom em si mesmo. O mesmo é verdadeiro a respeito da saúde, das riquezas e da alegria, porque elas não são usadas de forma vantajosa por tais pessoas. Mas certamente seus contrários as beneficiam. Portanto nenhuma delas é má em si mesma, mesmo que ela possa parecer ser má.

78. Não uses mal tuas imagens conceituais de coisas, para que tu não sejas compelido a fazer um uso errado das próprias coisas. Porque se um homem não peca primeiro em sua mente, ele nunca pecará em ação.

79. Os vícios principais, estupidez, covardia, licenciosidade, injustiça, são a imagem do homem terreno. As virtudes principais, inteligência, coragem, autocontrole, justiça, são a imagem do homem celestial. Assim como nós portamos a imagem do terreno, vamos também portar a imagem do celestial (cf. I Cor. 15:49).

80. Se tu queres achar o caminho que leva à vida, o busca no Caminho que diz, Eu sou o caminho, a porta, a verdade e a vida (João 10:7; 14:6), e lá tu o acharás. Apenas que tua busca seja diligente e trabalhosa, porque são poucos aqueles que o acham (Mat. 7:14) e se tu não estás entre os poucos tu te acharás com os muitos.

81. Cinco coisas fazem uma alma se cortar do pecado: o medo do julgamento, a esperança de recompensa futura, o amor de Deus e, por último, a incitação da consciência.

82. Alguns dizem que não haveria mal no mundo criado a menos que houvesse alguma potência fora deste mundo nos arrastando para o mal. Mas esta assim chamada potência é de fato nossa negligência das energias naturais do intelecto. Porque aqueles que nutrem estas energias sempre fazem o bem, nunca o mal. Se isto, então, é o que tu também queres fazer, te livra da negligência e tu expulsarás também o mal, que é o uso errado de nossas imagens conceituais de coisas, seguido pelo uso errado das próprias coisas.

83. Em seu estado natural, a inteligência humana é sujeita à inteligência divina e ela mesma governa sobre o elemento não-inteligente em nós. Que esta ordem seja mantida em todas as coisas, e não haverá mal entre criaturas nem nada que nos arraste para o mal.

84. Alguns pensamentos são simples, outros são compostos. Pensamentos que não são apaixonados são simples. Pensamentos carregados de paixão são compostos, consistindo como eles o fazem de uma imagem conceitual combinada com paixão. Sendo assim, quando pensamentos compostos começam a provocar uma ideia pecaminosa na mente, muitos pensamentos simples podem ser vistos a os seguir. Por exemplo, um pensamento apaixonado sobre ouro surge na mente de alguém. Ele tem o impulso de roubar o ouro mentalmente e comete o pecado em seu intelecto. Depois os pensamentos da bolsa, do baú, do quarto e assim por diante se seguem de perto ao pensamento do ouro. O pensamento do ouro era composto porque ele era combinado com paixão mas aqueles da bolsa, do baú e assim por diante eram simples; porque o intelecto não tinha paixão em relação a estas coisas. E o mesmo é verdadeiro para todo pensamento, pensamentos de autoestima, mulheres e assim por diante. Porque nem todos os pensamentos que seguem pensamento apaixonado são eles mesmos apaixonados, como nosso exemplo mostrou. A partir disto, então, nós podemos saber quais imagens conceituais são apaixonadas e quais não o são.

85. Alguns dizem que os demônios primeiro tocam os genitais durante o sono e assim incitam a paixão da impudicícia. Uma vez incitada, a paixão, por meio da memória, traz a forma de uma mulher para o intelecto. Mas outros dizem que os demônios aparecem primeiro ao intelecto na aparência de uma mulher e depois excitam o apetite em tocando os genitais e assim as fantasias surgem. Ainda outros dizem que a paixão dominante no demônio que se aproxima agita a paixão correspondente em nós, e assim a alma é incitada a pensamentos pecaminosos e traz estas formas femininas para o intelecto por meio da memória. O mesmo é verdadeiro a respeito de outras fantasias apaixonadas. Alguns dizem que elas acontecem de uma forma, outros de uma outra. No entanto, se o amor e o autocontrole estão presentes na alma, os demônios não têm poder para incitar nenhuma paixão de todo de qualquer das formas descritas, se o corpo está acordado ou dormindo.

86. Alguns mandamentos da Lei de Moisés devem ser guardados tanto física quanto espiritualmente, outros apenas espiritualmente. Por exemplo, Tu não cometerás adultério, tu não matarás, tu não roubarás (Ex. 20:13-15) e assim por diante devem ser guardados tanto física quanto espiritualmente (a observância espiritual é tripla, como explicado abaixo). Ser circuncidado (cf. Lev. 12:3), guardar o Sábado (cf. Ex. 31:13), e abater o cordeiro e comer pão sem fermento com ervas amargas (cf. Ex. 12:8; 23:15) e injunções similares são para ser guardadas apenas espiritualmente.

87. Há três estados interiores principais que caracterizam a vida do monge. O primeiro consiste em não pecar em ações; o segundo em não permitir à alma de flertar com pensamentos apaixonados; o terceiro em ser capaz de contemplar sem paixão na mente as formas de mulheres e daqueles que ofenderam a alguém.

88. Um homem que é verdadeiramente sem posses é um que renunciou a todos seus bens mundanos e não tem absolutamente nada na terra exceto seu corpo; e que, quebrando seu apego ao corpo, se confiou ao cuidado de Deus e do devoto.

89. Algumas pessoas com posses as possuem sem paixão, e assim quando privadas delas elas não ficam desanimadas mas são como aqueles que aceitaram a apreensão de seus bens com alegria (cf. Heb. 10:34). Outras possuem com paixão, de tal forma que quando elas estão em perigo de serem desapossadas elas se tornam inteiramente desanimadas, como o homem rico no Evangelho que se foi cheio de tristeza (cf. Mat. 19:22); e se elas são de fato desapossadas, elas permanecem desanimadas até elas morrerem. A desapropriação, então, revela se o estado interior de um homem é sem paixão ou dominado por paixão.

90. Os demônios atacam a pessoa que alcançou os cumes da oração a fim de prevenir suas imagens conceituais de coisas sensíveis de ser livres de paixão; eles atacam o gnóstico para que ele flerte com pensamentos apaixonados; e eles atacam a pessoa que não avançou para lá da prática das virtudes para a persuadir a pecar por meio de suas ações. Eles contendem com todos os homens por todo meio possível a fim de os separar de Deus.

91. Aqueles que a providência divina está conduzindo para a santidade nesta vida são testados pelos três testes seguintes: pela dádiva de coisas agradáveis, tais como a saúde, a beleza, filhos belos, dinheiro, fama e assim por diante; por aflições causando angústia, tais como a perda de filhos, de dinheiro e de fama; e por sofrimentos corporais, tais como a doença, a tortura e assim por diante. A aqueles na primeira categoria o Senhor diz, Se uma pessoa não abandona tudo o que ele tem, ele não pode ser Meu discípulo (Lucas 14:33); e a aqueles na segunda e terceira Ele diz, Vós ganhareis a posse de vossas almas por meio de vossa paciência (Lucas 21:19).

92. As quatro coisas seguintes são ditas a mudar o temperamento do corpo e por meio dele a produzir ou pensamentos apaixonados ou sem paixão no intelecto: anjos, demônios, os ventos e a dieta. É dito que os anjos o mudam por pensamento, os demônios por toque, os ventos por variar, e a dieta pela qualidade de nossa comida e bebida e por se nós comemos demasiado ou demasiado pouco. Há também mudanças trazidas por meio da memória, da audição e da Visio, a saber, quando a alma é afetada por experiências alegres ou angustiantes como resultado de um destes três meios, e depois muda o temperamento do corpo. Assim mudado, este temperamento por sua vez induz pensamentos correspondentes no intelecto.

93. A morte no sentido verdadeiro é a separação de Deus, e o aguilhão da morte é o pecado (I Cor. 15:56). Adão, que recebeu o aguilhão, se tornou ao mesmo tempo um exilado da árvore da vida, do paraíso e de Deus (cf. Gên. 3); e isto foi necessariamente seguido pela morte do corpo. A vida, no sentido verdadeiro, é Aquele que disse, Eu sou a vida (João 11:25), e que, tendo entrado na morte, conduziu de volta à vida aquele que tinha morrido.

94. Um homem escreve ou para ajudar sua memória, ou para ajudar outros, ou por ambas as razões; ou então ele escreve a fim de injuriar certas pessoas, ou para se exibir, ou por necessidade.

95. No Salmo 23, a pastagem verde representa a prática das virtudes; a água de refresco, o conhecimento espiritual de coisas criadas.

96. A sombra da morte é a vida humana. Portanto se um homem está com Deus e Deus está com ele, claramente ele é capaz de dizer, Embora eu caminhe por meio da sombra da morte, eu não temerei nenhum mal, porque Tu estás comigo.

97. Um intelecto puro vê coisas corretamente. Uma inteligência treinada as põe em ordem. Uma audição aguda recebe o que é dito. Aquele que tem falta destas três qualidades insulta a pessoa que falou.

98. Aquele que conhece a Santíssima Trindade, a criação da Trindade, e a providência, e que trouxe o aspecto passível de sua alma a um estado de despaixão, está com Deus.

99. De novo no Salmo 23 a vara é dita a significar o julgamento de Deus e o cajado Sua providência. Assim aquele que recebeu conhecimento espiritual destas coisas é capaz de dizer, Tua vara e Teu cajado me confortaram.

100. Quando o intelecto é despojado de paixões e iluminado com a contemplação de seres criados, então ele pode entrar em Deus e orar como ele deveria.